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Quem cuida da sua vida é você

Renato Filev Arte: C´Amô Crew

Drogas como a maconha, cocaína, heroína, LSD, MDMA são proibidas, nem por isso estas substâncias deixaram de serem consumidas.


É uma honra contar mais umaa vez com a colaboração do Neurocientísta Renato Filev, que nos apresenta mais uma vez algumas lições sobre a autonomia e o uso de drogas, perspectiva forjada em anos de atuação no movimento proibicionista paulistano. Excelente leitura (O Editor)

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Com a percepção alterada enxergamos as situações cotidianas sob um ponto de vista diferente do comum. Existir sobre efeito de psicoativos como café, maconha, álcool, psicodélicos... Possibilita a reflexão sobre ações individuais e coletivas de maneira extraordinária. Essa ruptura com o viver careta faz parte do rol de hábitos humanos. O uso de drogas se apresenta, desde sempre, como polo efervescente de produção cultural, científica e filosófica, que impacta profundamente na nossa construção pessoal e do mundo em que vivemos.

As drogas psicoativas provocam alterações no humor, sensação de prazer, aguçam o desejo, relaxam, causam euforia, distorções do pensamento, dos processos mentais e por vezes da personalidade, desarranjam as estruturas ordinárias dos nossos sentidos permitindo com que desloquemos esse padrão engessado para novas experiências de cores, sabores, sons e texturas. No entanto, não existem drogas que não provoquem danos. É sabido que o uso de muitas das substâncias que alteram a percepção vêm, historicamente, colocando os indivíduos que as consome em situações de risco. Seja pelo seu potencial de causar dependência, seja pelos eventos adversos associados ao seu consumo ou pelo contexto de vulnerabilidade em que se faz este uso. No entanto, substâncias, presentes em nossos alimentos cotidianos, como açúcar refinado, sódio ou agrotóxicos podem provocar danos caso consumidos em excesso ou por um longo período da mesma forma que as substâncias psicoativas, por vezes provocam danos ainda maiores.

Atualmente uma porção de drogas como a maconha, cocaína, heroína, LSD, MDMA são proibidas, nem por isso estas substâncias deixaram de serem consumidas. Nem por isso quem as vende (em grandes quantidades) deixou de lucrar. Nem por isso adolescentes deixaram de consumir. Nem por isso as pessoas pararam de sintetizar novas drogas para burlar a proibição. Nem por isso as drogas deixaram de ser consumidas nos presídios. Nem por isso as pessoas perderam a curiosidade em alterar as suas percepções... O historiador, Antonio Escohotado conta que possivelmente não existiu em vida algum Homo sapiens que não tivesse ao menos ouvido falar sobre tais substâncias. Sabe-se que a escolha em proibir algumas plantas em detrimento de outras, que por vezes podem provocar danos mais severos, foram impulsionados por interesses econômicos e também de controle dos hábitos das minorias étnicas. Em outras palavras, por preconceito racial.

Como mencionado, as substâncias psicoativas são aquelas que causam euforia. A euforia é um efeito de prazer que recompensa a pessoa por ter praticado tal atividade, neste caso o uso da droga. Esse efeito, popularmente chamado de barato, é considerado tema tabu na sociedade ocidental contemporânea. As pesquisas biomédicas sobretudo do Instituto Americano de Drogas (NIDA) reforçam o caráter proibitivo acerca de algumas drogas a medida que os estudos financiados pela dita entidade contemplam investigações que busquem encontrar os danos provocados pelas drogas, mas não seus benefícios. Esta mesma entidade atesta que certas drogas devem ser mantidas proibidas pois apresentam potencial de provocar dependência, ou no caso dos psicodélicos pelo perigo de risco de vida e ameaça a terceiros. No entanto a mesma instituição sugere políticas de saúde não proibitivas e mais brandas à algumas drogas, com os mesmos potenciais riscos, como os benzodiazepínicos, álcool e tabaco, por exemplo. Raras são as pesquisas financiadas por este órgão que apontam os efeitos positivos das substâncias.

Gerações de pensadores de diferentes épocas e regiões desfrutaram dos efeitos das drogas e fizeram disso ponto central da sua produção artístico-intelectual. Porém a ênfase no problema e nos riscos atrelados ao consumo das substâncias somados a carência de informações idôneas negligenciadas em qualquer ambiente, familiar, escolar ou laboral, fazem com que o tema se torne um monstro embaixo da cama. aquele problema com o qual você não consegue ou não sabe lidar. Se a sociedade continuar negligenciando um diálogo franco e sóbrio sobre as drogas, (lê-se sóbrio no sentido de retirar a emoção do debate) inevitavelmente esse assunto irá capturar nossas crias e levá-las a por um caminho aleatório, que por sorte ou destino regressará a salvo ou não desta experiência. Porém, isso não precisa continuar acontecendo desta forma. Basta querermos mudar e entendermos que precisamos desvelar a hipocrisia que permeia a nossa relação pessoal com as substâncias.

Para falar com jovens, fingir que as drogas não existem e que só fazem mal não é a melhor estratégia de tratar a complexidade do tema, por isso a abordagem a ser utilizada também não deve ser simplista. Tratar adolescentes como pessoas, futuros adultos, que possuem vontades próprias e curiosidades inerentes da idade é o primeiro passo para iniciar respeitosamente uma relação com a outra pessoa. Assumir alguns pressupostos são importantes para nortear essa relação. Considerar que todos por vezes na vida tomam decisões equivocadas, que as outras pessoas podem ter idades, culturas e valores diferentes dos teus, que todos em alguma etapa da vida, se não em toda, consome drogas e que as substâncias que alteram a percepção são a maconha, cocaína, cogumelos mas também o café, álcool, tabaco, chocolate, calmantes, emagrecedores, inalantes etc.

O tratamento com a pessoa que você deseja transmitir informações de cuidado, de promoção de saúde e redução dos danos associados ao consumo de drogas deve, sobretudo ser pautado na horizontalidade, interessado na formação do vínculo, buscando empatia com o interlocutor, isso quer dizer, entendendo sua condição, colocando-se no seu lugar e não a recriminando por qualquer estereótipo ou julgando sua atitude como maléfica. Dessa forma torna-se de grande chance da conversa ser produtiva, com bom sucesso na troca de experiências e troca dos conhecimentos sobre as drogas. Falar sobre autonomia, avaliação de risco, como lidar com as diferentes substâncias, seus efeitos bons e ruins, como conhecer os sinais do seu corpo e de como minimizar os possíveis danos associados ao consumo ou situações e contextos de vulnerabilidade serão mais fáceis e atrativos a ambos se um elo de confiança estiver formado.  

O foco desta educação esta para além das drogas. Esta conversa tem como objetivo a discussão sobre o cuidado de si, da auto aceitação como um indivíduo com suas idiossincrasias, de saber lidar com situações de escolha e com comportamentos que podem oferecer risco à sua saúde, refletir se esta atitude pode interferir diretamente em seu bem estar e nos de terceiros. Deve-se almejar pela formação de um cidadão melhor, estimula-lo a buscar uma vida autônoma, vivida com discernimento com respeito à diversidade, em discernir o que lhe faz bem ou lhe faz mal, em que momento, em que contexto, em que quantidade, com quais pessoas etc.

Uma ferramenta útil, transversal para a vida do indivíduo, sobretudo quando os comportamentos envolvam riscos como beber, comer, dormir, transar, usar drogas, praticar esportes é a redução de danos. A técnica pragmática, de baixa exigência ao sujeito pois não exige a abolição do comportamento problemático, mas permite que o indivíduo reformule a sua relação com este. Permite com que reflita se estes comportamentos estão sendo praticados em excesso ou escassez.

Espera-se que novas abordagens para lidar com as substâncias perpassem pelas diretrizes de direitos humanos e redução de danos. Que olhe o usuário de drogas não como um criminoso, nem como alguém que necessite de atenção médica, mas como um cidadão como outro qualquer (ou você acredita que precisa ir no médico porque toma uma cervejinha aos finais de semana?), com seus hábitos e costumes, que uma sociedade democrática deve respeitar e acolher a medida que haja necessidade nas sua multiplicidade de esferas. Juntamente com a legalização de todas as substâncias consideradas hoje proibidas, essa nova política deve sobretudo informar; expandir a educação, debate e conscientização sobre os efeitos das substâncias, riscos e benefícios que podem ser alcançados com o uso desta ou daquela droga. Essa nova política deve vir acompanhada de um moroso processo de ruptura social com o paradigma do homem, branco, cis, ocidental, religioso, torcedor, em boa forma física, graduado, rico, usuário de drogas legais, como sendo o perfil do cidadão ao qual todos devam se espelhar (jamais contrariar!) E todo e qualquer fenótipo que fuja deste padrão minoritário e privilegiado estará sujeito a opressões e punições do sistema vigente. Cidadãos de gênero, cor de pele, orientação sexual ou poder aquisitivo diferentes deste modelo sofrem desde o escárnio paulatino ao genocídio seletivo provocado pela mão violenta do Estado. Isso será inadmissível numa sociedade em que as drogas não sejam proibidas.

* Renato Filev é Doutor em Neurociência pela UNIFESP - Escola Paulista de Medicina. Atualmente é coordenador do grupo Maconhabrás/ CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas/ UNIFESP.


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