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A Esclerose Múltipla no IV Simpósio Internacional de Cannabis Medicinal

Por Rafael Morato Zanatto* - Arte J.R. Bazilista

“Como podemos fazer chegar à classe médica que a maconha não é a erva maldita?” E.A. Carlini


Passados vinte dias do IV Simpósio Internacional de Cannabis Medicinal, continuamos a dar vazão as suas discussões por acreditar na importância de vulgarizar os conhecimentos que ali transitaram. Como já dissemos, os pacientes roubaram a cena. Os relatos sobre os males e de como a maconha os ajudou abriram margem para muitas reflexões. Na mesa sobre esclerose múltipla, composta pela doutora Graziela Moslka, pesquisadora do CEBRID e Liliana Russo, representante da ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla, o paciente Gilberto Castro nos relatou como realiza o tratamento de sua doença com a cannabis (planta in natura vaporizada).

Gilberto, ativista conhecido pela dedicação que despende a sua causa, ofereceu-nos uma breve biografia. Atualmente com quarenta anos, disse não possuir passagem pela polícia. Descobriu que possuía EM em 1999, quando por conta de uma crise teve a parte inferior do pescoço debilitada. Procurou se informar sobre a doença, e com o conselho de seu médico, ficou sabendo que o uso de maconha poderia amenizar as sensações geradas pela doença. Não era maconheiro, e sim alcoolista. “Para mim, maconha era droga”. Não demorou para que ampliasse sua pesquisa. Recorreu a fóruns de informação como o Growroom e destacou a importância do lançamento de uma Super Interessante, que em suas palavras, abriu o caminho. Com o uso da cannabis, percebeu a melhora de seu quadro, e após seis anos, voltou a viver normalmente. Mudou-se com sua família para o Mato Grosso do Sul, um lugar mais tranquilo, onde “tinha mais qualidade de vida. Como não tinha mais esclerose, parei de fumar e voltei a beber, a comer churrasco. Depois de um ano sem fumar maconha, teve outro surto. A esclerose acaba com a comunicação do sistema nervoso. Desliga partes do corpo e da memória”.

Ao conseguir um pouco de cannabbis no mercado negro, melhora, mas ao retornar a São Paulo, perde o acesso a cannabis e seu quadro piora, tendo outro surto. Estudando sozinho, descobriu que a cannabis possui um imunoregulador, que é o responsável por sua melhora. Sentindo necessidade de transgredir seu relato para se posicionar politicamente, Gilberto disse que “estamos muito atrasados na pesquisa. As crianças abriram o caminho, mas tem muito o que ser feito. Eu tomo um remédio que é importado de Israel que é usado com cannabis. Ou seja, eu acabo recebendo metade do tratamento, e a outra metade eu tenho que recorrer ao crime organizado. Até hoje não vemos uma planta, mas um monstro que iria nos abraçar e nos levar para a vala. Isso tem que mudar. No terceiro surto, tive certeza. Foi horrível ver partes de mim formigando, irem sumindo. Espero que esses avanços não sejam interrompidos por frentes evangélicas e políticos reacionários, com medo de perder voto”.

Após a fala de Gilberto, o paciente Sidnei Cesário, de cinquenta anos, teve um caso parecido com o de Gilberto. Descobriu a doença com trinta e dois anos. No início, não deu muita importância. Fez tratamento, exames, nenhum acusava, até que veio a ressonância. Pensou que era simples, mas um ano de exames após a descoberta começou a tomar vários medicamentos injetáveis e por via oral, sem obter nenhum resultado. Teve vários surtos no meio do caminho. Tomou injetáveis como o Copaxone, que lhe fizeram “muito mal, todos. Não quero que ninguém passe por isso. Fiquei sabendo a pouco tempo da maconha. Nunca experimentei. Espero que ninguém possa deter o avanço da nossa melhora. Não falo só por mim, mas por todos que passam por isso. Eu tenho problemas de dicção, mas vou me esforçar. Eu prefiro responder as perguntas do que expor minha história, que é muito dolorosa, prefiro responder”.

Com o microfone aberto para perguntas da plateia, Tarso Araujo pede para que Gilberto fale sobre o efeito da cannabis nos sintomas de sua doença. “Como você percebe que a cannabis afeta isso, em suma, qual o efeito pontual e objetivo da cannabis. Como ele você sente a dor e espasticidade sem a utilização?”

Segundo Gilberto, sentia muito incômodo e que a espasticidade era “monstruosa, muito forte. Antes de usar a cannabis, tinha choques a noite que me arruinavam a noite de sono. Me deixava um vegetal. Com o uso da cannabis isso imediatamente desapareceu. Antes sentia tonturas, cansaço. Os espasmos são muito doloridos em algumas regiões. Em breve eu espero poder cultivar meu próprio remédio. A ciência precisa estudar o CBD e o THC relacionado ao combate da evolução da esclerose múltipla”.

O pesquisador Mark Ware, do Canadá, agradeceu a Gilberto por compartilhar sua história e lhe perguntou sobre a quantidade de maconha que empregava diariamente em seu tratamento. Gilberto lhe respondeu que como a cannabis que usa é de baixa qualidade, ele acredita que usa uma quantidade maior se tivesse acesso a plantas com maior concentração de CBD ou THC. “Na maioria das vezes eu fumo. Já experimentei óleo, manteiga, vaporização, mas hoje eu uso fumado. Nos dias de trabalho, eu fumo de manha e quando chego em casa depois do trabalho, mas sinto que se desse dois peguinhas as três da tarde, me sentiria melhor. E tenho a certeza que meu patrão não seria contra”.

O advogado Emilio Figueiredo lhe pergunta então qual o tipo de cannabis que Gilberto acha adequado para seu tratamento. “Fiz testes com o CBD. Funciona muito bem, relaxa seu corpo, a sensação psicoativa é bem mais fraca. É ótimo para usar no trabalho por conta disso, mas preciso também do THC, porque é bom para dores e espasmos. Já o CBD eu uso para controlar a evolução da doença”.

O professor Carlini comenta o fato dos pacientes entrarem em contato com o crime organizado, ressaltando que afinal “são eles que estão lhe prestando esse auxílio. Gostaria de perguntar como você consegue esse medicamento, se vocês tem confiança, é sempre a mesma pureza? Acredito que um dia chegara a hora do SUS fornecer esse medicamento para vocês”. O paciente disse gastar em média duzentos reais por mês. Enquanto não tinha deficiência motora, ele mesmo para conseguir ia às bocas para conseguir seu remédio, mas que agora, alguns amigos lhe prestam auxílio, ora disponibilizando-lhe plantas de extrema qualidade ora com fumo prensado, proveniente do Paraguai.

Uma pergunta da plateia, cuja identidade dissolveu-se em meio a transcrição, foi dirigida ao paciente Sidnei, que ainda não fez o uso da cannabis. “O que você aprendeu com a experiência que está tendo no simpósio? Quando vai começar a usar, antes ou depois da mudança da lei”. Sidnei, sem hesitar, emocionou o público ao proferir as seguintes palavras: “Eu quero meu bem, quero o bem da humanidade, eu não temo transgredir a lei. Eu não sei o que pode me causar de beneficio. Se ela faz essa mágica (maconha) eu seria um defensor nato dessa mágica”. Diante dos depoimentos, a mediadora Liliana Russo, da ABEM encerrou a mesa dizendo que precisamos de bons cidadãos como Gilberto e Sidnei, que vieram até o simpósio para abrir o coração pra gente – “Corajosos”.

Após os relatos dos pacientes, foi a vez dos especialistas subirem ao palco, a começar pelo Dr. Mark Ware, da Universidade de Mc. Gill, Canadá, para ilustrar o uso da cannabis como medicamento para esclerose múltipla em seu país, e o Dr. Denis Bichuetti, do Departamento de Neurologia da UNIFESP, que contribuiu para o debate ao ilustrar os tratamentos disponíveis no Brasil para a Esclerose Múltipla. Em primeiro, o brasileiro.

O Dr. Bichuetti explicou-nos que os surtos relatados por Gilberto pioram e melhoram ao longo de quatro semanas, e depois voltam melhorar, e isso é acumulativo e vai degenerando, porque a inflamação gera lesão degenerativa, pela interrupção de oxigênio nos neurônios com essas crises. O tratamento da esclerose múltipla, segundo Bichuetti, se concentra em evitar a progressão da doença, reduzir déficits neurológicos, mortalidade, e agregar melhora na qualidade de vida dos pacientes. Ainda existe, segundo o médico, um terceiro tratamento, que se foca na regeneração dessas lesões a partir do estímulo da produção de Melina, substância que volta a revestir os neurônios, mas ainda este em fase experimental.

Dos tratamentos disponíveis no Brasil, Bichuetti citou o uso de alguns imunossupressores, como as Betainterferonas, Acetato de Glatirammer, Natalizumabe, estas que podem atrasar a evolução da doença em 30%. Com a Ciclofosfamida ou a Mitoxantrona, esse número pode aumentar para 50 % de sucesso no atraso da esclerose múltipla, destacando que quanto mais cedo se tem o diagnóstico da EM, melhores são seus resultados.

Existem ainda tratamentos com outros remédios como Fingolimode, Alemtuzumabbe, Teriflunomida, etc, mas estão apenas disponíveis a um alto custo, impossibilitando o tratamento em alta escala. A base da medicina no Brasil, em se tratando da EM, são as Betainterferonas e o Acetato de Glatirammer, apesar de serem injetáveis e possuírem efeito apenas a longo prazo e trazer danos como a queda de cabelo, arritmia cardíaca, entre outros. Segundo Bichuetti, o Alemtuzumabe após duas doses, provoca a queda do número de plaquetas e desenvolvimento de lesões na tireoide, o que implica na necessidade do paciente realizar um exame sanguíneo uma vez por mês durante 5 anos.

Os principais sintomas da esclerose múltipla foram listados pelo especialista: constipação, dificuldades visuais, perda de sensibilidade, tremor, contração de memória, fadiga e perda de locomoção. Isso implica que junto aos remédios seja necessário manter a vida social do paciente, que é afetada principalmente pela dificuldade de locomoção, perda de visão e de memória. Segundo Bichuetti, pode-se combinar ao tratamento fisioterapia, relaxante muscular, corticoide, yoga, injeção de esteroides, entre outros. Isso implica que para tratar da doença deve-se formar uma equipe multidisciplinar, composta por fonoaudiólogos, ortopedistas, neurologistas, psicólogos, enfermeiros, além do serviço administrativo.

Após a esclarecedora fala do professor da UNIFESP, foi a vez de Mark Ware tomar a palavra, explicando-nos como é articulado o tratamento no Canadá. Como Bichuetti, destacou a necessidade de iniciativas interdisciplinares, com diferentes aproximações e estratégias para enfrentar a progressão da doença. Disse que em seu país, usam medicamentos a base de canabinóides para combater a espasticidade, mal destacado por Sidney e Gilberto, além das dores neuropáticas.

Ware lembrou do Sativex, mas também de outros laboratórios que produzem no Canadá. Citou diversas concentrações de THC e CBD, em óleo, spray, além do Nabilone em cápsula. Em sua explanação, enumerou os laboratórios licenciados no Canadá, como o Bedrocan Canada Inc., Canna Farms, Canni Med ltd., Delta 9 Biotech, inc., etc., produtores de óleo ou flores sem contaminantes, como o Bedrocan, flor de alto teor de THC. Relatou ainda o baixo potencial de abuso do medicamento e para citar mais um dos benefícios, destacou que o paciente não desenvolve tolerância, evitando que a dose tenha sempre que ser aumentada como acontece com os derivados de ópio.

A plateia acalorada com os depoimentos dos pacientes e abismada com os efeitos colaterais dos medicamentos imunossupressores teve sua vez com o microfone aberto para perguntas. A primeira foi sobre a possibilidade do emprego da cannabis na regeneração do hipocampo, pois segundo o questionador, o CBD e o THC servem para regeneração. Ware respondeu que não poderia responder a questão, e que a cannabis é apenas mais um em uma lista de muitos outros medicamentos que tem seus efeitos comprovados. Segundo Ware, é importante ter cautela enquanto não temos conhecimentos mais aprofundados sobre o tema, e que ao prescrever o CBD ou o THC, nota que funciona para alguns, e para outros não. “Deve-se fazer o estudo caso a caso”.

O seguinte questionou se Denis Bichuetti não lamentava não contar com a cannabis para ampliar suas estratégias de tratamento. Para o neurologista, a cannabis é importante, assim como outros medicamentos que não temos acesso: “Temos apenas a metade dos medicamentos que os médicos estadunidenses e europeus tem a sua disposição. Muitos medicamentos não chegam porque não é do interesse da indústria, pois no brasil grande maioria precisa do acesso público, e se esse medicamento não é incorporado no rol do SUS, acaba não sendo interessante comercialmente para a indústria farmacêutica”. Para complementar, lembrou do Viox, um anti-inflamatório que continua disponível no mercado nacional e que foi retirado na Europa por provocar doenças cardiovasculares após cinco anos de uso.

Diante do clima de horror que ia tomando a plateia diante da narração dos efeitos adversos provocados por esses medicamentos químicos, Ware sentiu a necessidade de frisar que muitos fitoterápicos também possuem efeitos adversos, e que não poderia discutir sobre a dose de algo que não é obtido de forma padronizada.

A montagem do simpósio permitiu o contraste entre o Brasil e os países que incorporaram a cannabis em sua medicina. A pergunta de Tarso Araújo reforçou nosso atraso ao perguntar ao Dr. Bichuetti se não poderia incorporar a maconha, tal como Ware, ao seu arsenal de medicamentos e estratégias terapêuticas. Bichuetti disse que para saber as reais dimensões, é preciso que no Brasil vigore a regulação da substância, grupos de pesquisa em universidades, agência reguladora, etc., para que isso seja feito de modo científico.

Os debates ainda renderam perguntas sobre a eficiência do Sativex e quais as suas vantagens em comparação a erva in natura. Ware disse que no Canadá muitos médicos prescrevem maconha in natura, mesmo com a ausência de dispensários, e que os pacientes preferem as flores que as cápsulas. Mark Ware disse ser necessário avaliar o estudo em escalas objetivas, que considerem qualidade de vida, atividade laboral, avaliação clínica, etc.

Após as respostas animadoras do ponto de vista científico, o professor Carlini tomou a palavra para tecer alguns comentários. “Parece que o grande problema que estamos discutindo é a dificuldade do médico em enfrentar essa problemática. Eu queria saber se no Canadá existe algum programa oficial de formação desses profissionais, levado a frente por alguma instituição? Como poderíamos inventar um curso para melhorar o entendimento dos médicos brasileiros sobre os efeitos terapêuticos e os efeitos adversos da maconha. Como podemos fazer chegar à classe médica que a maconha não é a erva maldita?”

Mark Ware disse que dispõem de boletins e conferências para que médicos possam aprender a lidar com a nova droga. “Não existem companhias, e sim um programa do governo federal que orienta as práticas médicas. Possuímos grupos pequenos e grandes, compostos por 300 médicos, mas sabemos que é difícil mudar a cabeça das pessoas. Muitos médicos não tem ideia, não sabem o básico, apesar da grande circulação da informação”. Ainda resta falar do uso da cannabis no combate das dores, seu emprego por pacientes como tratamento suplementar ao câncer e o debate político no último dia do simpósio, temas de nossas próximas publicações.

* Rafael Morato Zanatto é doutorando em História e Sociedade pela UNESP- FCL Assis, e mestre pela mesma instituição. Pesquisador associado ao grupo Maconhabrás de Cannabis Medicinal (CEBRID – UNIFESP) e sócio-fundador da ACuCa – Associação Cultura Cannabica de São Paulo


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