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A primeira Igreja Niubingui Etíope Coptic de Sião do Brasil

Fabiano da Cunha Santos* Arte: C'amô Crew

A conversão ao rastafarianismo depende apenas de uma elevação de consciência social de uma situação de opressão e dominação do sistema.


A religiosidade rastafari nasceu num contexto proibicionista onde o uso da maconha que possibilita a religação do sujeito ao seu Deus Jah é tido como ilegal em quase a totalidade das nações, até mesmo na Jamaica, onde se iniciou a ceita. A Cultura rastafari sobrevive apesar de uma guerra travada pela ilegalidade da distribuição, comércio e consumo da cannabis, em todos os seus usos, sejam eles medicinais, recreativos e, até mesmo, religiosos. O Santo Daime e a União do Vegetal, por exemplo, que usam vegetais como entidades sagradas e elementos principais nos seus rituais podem legalmente praticar suas doutrinas e seus trabalhos de cura. O rastafarianismo carrega, por outro lado, um estigma negativo e preconcebido como marginal por uma série de preceitos morais e políticos dominantes criando toda uma história de políticas repressivas à maconha.

Cabe agora analisar como o rastafarianismo sobreviveu em meio à marginalização de suas práticas ritualísticas; Como esta vertente religiosa pensa e fundamenta suas ortodoxias, e, para além disso, investigar-se-á como estes preceitos espiritualistas conseguem cativar seus líderes e adeptos. O campo de pesquisa etnográfico escolhido para esta problemática é a primeira Igreja Niubingui Etíope Coptic de Sião do Brasil localizada no município de Americana, São Paulo fundada pelo “Elder” ou Ancião Ras Geraldo Antonio Bapstista, o “Geraldinho”. Lá, a maconha é tida como sagrada e seu uso é constante e em diferentes rituais religiosos. A ilegalidade da cannabis e a marginalização da conduta dificultam a aceitação social e legal do rastafarianismo como via religiosa do uso da cannabis. Diante disso pretende-se discutir qualitativamente sobre os aspectos religiosos da religião rastafari e o contexto social e político contemporâneo proibicionista.

A partir de uma observação participante pretende-se demonstrar alguns preceitos filosóficos da Igreja Niubingui bem como suas práticas religiosas; suas relações com o contexto de marginalização de sua cultura e religião; e a relação com seus adeptos. A religião Rastafari é considerada uma vertente protestante do cristianismo, tendo a Bíblia (o Velho Testamento) como livro sagrado. Em geral, os rastafaris assumiram Ras Tafari Makonnen (1892 - 1975) como o seu Messias. Imperador da Etiópia de 1930 a 1974 e batizado Haile Selassie teve o título de “Negusa Negast” (Rei dos Reis) pela população da jamaica. O mesmo reconheceu a Congregação Coptic Ortodoxa que foi formada primeiro na Etiópia ou Abissínia como era chamada antigamente e que seria a terra prometida, chamada de Sião (Zion).

A Babilônia, sociedade de enganação e ilusão, onde só existem mentiras, guerras e opressão entrará em conflito com a justiça de Jah, caracterizando algo semelhante ao Apocalipse cristão. As expressões linguísticas constantes entre os rastafaris como: “mais fogo”; “queima babilônia” e “a Babilônia vai cair”, significam que o fim das ilusões políticas e opressoras está perto. A fé rastafari acredita que “a justiça de Jah tarda mas não falhará”. O contexto de opressão e pobreza social do mundo moderno contemporâneo é, para a filosofia rastafari, condição existencial para a concretização profética de um mundo melhor. A ideologia embutida nesta vertente religiosa explica e fundamenta as mazelas sociais como uma condição imposta pelo mundo (Babilônia) e que Jah, eleito de Deus como o Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Judá proverá a terra de positividade.

Esta positividade prescinde da consciência rasta, onde a noção de Eu e eu é a chave para a libertação de todo tipo de alienação social e opressão dos ricos e poderosos responsáveis pela imposição da Babilônia. A expressão Eu e eu significa a consciência individual de um eu pessoal e um Eu verdadeiro presente em cada espírito humano. Todo rasta é um Deus materializado. Através de uma consciência verdadeira, o eu (interior) encontra-se com o Eu superior, verdadeiro e sobre-natural, ou seja, esta consciência fundamenta-se na busca de um mundo mais próspero de paz e amor.

Observa-se através da análise do discurso rastafari que a conversão religiosa depende de uma conscientização individual diante de um mundo alienante e perverso. A mudança da ordem social depende de uma luta ideológica contra as mentiras produzidas para beneficiar os poderosos. A fundamentação religiosa passa por uma condição de iluminação e conscientização de seus seguidores ascetas. A verdade velada através da percepção religiosa e um reestabelecimento ético do indivíduo diante do mundo opressor poderá transformar o mundo em um ambiente mais harmônico, pacífico e ideal.

Dito isso, cabe aqui uma pergunta fundamental: Como manter a religião rastafari em uma sociedade que marginaliza seus preceitos ideológicos e culturais por associar o uso da maconha, assim como seu plantio, ao crime organizado e ao trafico de drogas? Em outras palavras, interroga-se como este tipo peculiar de prática religiosa se mantém como tal, ou seja, uma instituição social que fundamenta sua existência metafísica e pretende se manifestar eficaz na resolução dos problemas da sociedade contemporânea.

Sendo a produção, distribuição, comércio e o consumo da maconha ilegais, ser rastafari implica em uma série de pré-noções negativas que impossibilitam a própria seita ser considerada uma religião oficial e consequentemente suas possibilidade de ação social e material se limitam bastante. A criminalização e ilegalidade do uso da maconha em um contexto global implica na própria eficácia simbólica do rastafarianismo enquanto prática religiosa (LEVI-STRAUSS, 1985).

Esta constatação se explica pelo fato de serem raros os casos de ativistas do rastafarianismo preocupados em sustentar suas filosofias, estabelecerem suas igrejas e consequentemente conscientizarem as pessoas das mentiras alienantes da Babilônia. O exemplo da história da manutenção da Primeira igreja Etíope Niubingui brasileira exemplifica esta acertiva. Por diversas vezes o Ras Geraldinho foi surpreendido pela força repressiva do Estado que, através da polícia, invadiu seu recanto religioso para retirar as mudas de maconha plantadas. Além disso, por ser uma religião marginalizada está dispersa em regiões afastadas (guetos e periferias) e muitas vezes não têm registros de religião oficial.

 

A primeira Igreja Niubingui Etíope Coptic de Sião do Brasil.        

A Igreja Niubingui fica localizada no bairro Praia dos Namorados do município de Americana, São Paulo. Repleto de uma paisagem verde com diversas plantas e árvores, o sítio não esconde sua plantação de maconha que tem pés em diversos estados de crescimento e floração. Ras “Geraldinho” é muito receptivo àqueles que se interessem em conhecer seu espaço e sua filosofia. O controle formal estabelecido por ele está explicitado em um folheto informativo sobre as regras da casa, custos, horários, cultos, objetivos da instituição e pregações religiosas que se referem à Jah, iluminação, Eu e eu.

Devoto do antigo testamento, Ras Geraldinho faz parte de uma vertente tradicional rastafari, chamada de Coptic de Sião. A chamada Congregação Nova (Igreja Católica Romana) era ortodoxia, antes de ser corrompida pela doutrina heterodoxia e pelos costumes de homens que jamais conheceram Iyesus ou os Doze Discípulos dele. Segundo Ras Geraldinho, o nome “igreja” é substituído por Congregação ou Assembléia para retirar a carga institucional da sua religião.

A Congregação manifesta nas pessoas (Eu e eu) através de uma iluminação espiritual e da consciência sobre o mundo real. O uso da cannabis é o meio incondicional para os ritos que são diferenciados em três categorias: Reasoning, que significa arrazoamento, onde o Elder e os presentes fumam maconha e discutem sobre assuntos diversos. Esta prática se demonstrou como a mais comum, pois as visitas de iniciantes é constante e a conversa inicial é comumente feita através de conversas mais ou menos informais e agradáveis. A música reggae sempre está ambientalizando o templo que tem diversas imagens e símbolos religiosos como a Preta Velha e Preto Velho. Os outros tipos de ritos são o Tabernáculo onde se queima a erva em lugar fechado e o Nyabinghi que são momentos para se tocar tambores e fumar a erva sagrada.

A receptividade e amparo aos visitantes é uma qualidade presente ao perfil de Ras Geraldinho. O consumo é constante da erva ilegal e os visitantes variam entre estudantes de outras cidades da região paulista e jovens e adultos do município de Americana. Os horários de visita são de Quarta a Domingo das 14:00 às 19:00 horas, sendo que para ter acesso à casa basta tocar um sino bem acessível e visível. O portão frontal tem a estrela de Davi desenhada e na frente da rua encontra-se uma grande placa de apresentação da igreja.

Ras Geraldinho é casado com a sua segunda mulher Marlene que vive com ele a alguns anos. Sua função é mais cuidar dos afazeres domésticos do que estar presentes nas sessões de reasoning e consumindo a erva. O Elder Geraldinho já foi um profissional bem sucedido economicamente mas percebeu que a ideologia rastafari representa a verdade e a razão de vida para a sua existência. A realidade que vivia significava uma grande enganação e por isso passou por uma conversão religosa. Seus cabelos não são dread locks, mas ele não os corta.

Contrariando o Código Penal jurídico brasileiro, o Ras Geraldinho planta, colhe e fuma maconha em seu próprio sítio. As paredes e os telhados dos quartos contêm galhos pendurados secando para a cura (depois que colhidos, os frutos da erva devem secar por um tempo para concentrar THC).

Os visitantes que frequentam a Congregação são em grande média jovens, estudantes universitários de classe média. Muitos já frequentam a alguns meses sendo que a Niubingui está há três anos aberta a visitas. Os mais fieis são da própria cidade de Americana. A demanda é tão grande que mesmo em dias fechados para a visita Geraldinho recebe ligações de grupos pedindo para conhecer o espaço. Depois que uma revista conhecida divulgou o seu trabalho, novos visitantes de outras cidades marcaram visitas e foram bem recebidos. Existe também, por relatos do próprio Geraldinho, jovens que visitam seu estabelecimento usando outras drogas como lsd e cocaína, mas o mesmo não se demonstrou preocupado, pois sua função é apenas iluminar a consciência espiritual daqueles que frequentam o seu espaço.

Apesar de ter uma proposta libertadora o rastafarianismo não promete a cura para as doenças de saúde ou conflitos espirituais. A erva sagrada alimenta a alma graças à iluminação que provoca na consciência do ser humano. O contato com o ser divino (Jah) intermediado pelo consumo de ganja liberta a consciência e orienta a conduta social e de luta por direitos elementares. A terapeutica do ritual rastafari não busca salvar ou curar a vida do indivíduo que passa por problemas financeiros ou se afundou no alcoolismo, como são realizadas em religiões pentecostais brasileiras. A consciência do Eu e eu, alcançada nas discussões e debates que procuram o arrazoamento do indivíduo, se eleva ao patamar iluminado. Isso significa que o rastafari tem consciência de que o sistema é opressor e que sua opção é enfrenta-lo na busca de dias melhores.

Isso se refere a uma consideração importante: o rastafarianismo enquanto religião não estabelece em seus rituais e na sua própria proposta de religião ações terapeuticas de cura em seus devotos. A conversão ao rastafarianismo depende apenas de uma elevação de consciência social de uma situação de opressão e dominação do sistema. A conduta ética rastafari tem eficácia na prática de vida social dos seus seguidores. Além disso implica em uma mudança de hábitos alimentares onde o consumo de carne e cerveja não são considerados saudáveis.

No Brasil existem algumas vertentes do rastafarianismo além da Coptic de Sião. Geralmente são seguidores do velho testamento cristão e diferentemente da proposta de Ras Geraldinho, se isolam nas periferias das cidades ou em sítios mais distantes para se afastarem da Babilônia e alcançarem sua paz interior e libertação. A primeira Niubingui Coptic de Sião do Brasil se diz a única que quer “enfrentar a babilonia” tentando regulamentar-se oficialmente e se manter enquanto centro religioso. Durante os três anos de funcionamento Ras Geraldinho já foi surpreendido pela Polícia três vezes sendo suas plantas e sua bíblia imediatamente apreendidas. O Elder da primeira Niubingui foi condenado a 14 anos de prisão por tráfico de drogas, mas mesmo da cadeia o Ras continua lutando por sua liberdade, física e religiosa.   

* Fabiano Cunha dos Santos é doutorando em Antropologia e Etnologia pela Universidade Federal da Bahia. Mestre pelo programa de pós-graduação Educação e Contemporaneidade da Universidade do Estado da Bahia. Possui duas habilitações no curso de graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia: bacharelado em 2007 e licenciatura em 2009. É membro da LANPUD – Rede Latino-americana de usuários de drogas e da ABESUP – Associação Brasileira de Estudos do Uso de Psicoativos. Integra o coletivo organizador da Marcha da Maconha Salvador e do videolog http://lombra.com.br/.


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