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Tempo e Movimento Canábico

Patrícia de Oliveira*

Falo com pulsar de vida, falo reverenciando a minha pequena e tão grande Rosa.


Dando prosseguimento ao debate aberto na tarde de ontem, Patrícia de Oliveira, diretora da ABRACANNABIS nos remeteu sua experiência pessoal e seu ponto de vista a discussão que se desenvolve atualmente sobre o Associativismo Cannábico no Brasil. De peito aberto, Patrícia nos oferece uma entre tantas perspectivas para o debate que ora se apresenta:

 

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Minha expressão, independente de ser fundadora e diretora da Abracannabis, será no momento, como mãe de Deborah Rosa, com síndrome de Dravet, cuja expectativa de vida é inferior ao padrão.  Falo com pulsar de vida, falo reverenciando a minha pequena e tão grande Rosa. Falo com propriedade de quem luta há 24 anos entre idas e vindas de hospitais e UTIS. Falo de quem lutou aos 19 anos pela sua vida contra uma tuberculose que quase a levou. De quem enfrenta sozinha suas crises convulsivas de difícil controle, seu déficit cognitivo e motor, juntamente com suas características autistas;  falo com propriedade de quem  entra todos os dias no chuveiro para banha-la , cantando além de “rezar” baixinho para que ela não faça uma crise convulsiva no chuveiro, como várias vezes o fez. Falo sobretudo com a resiliência dos bravos.  Falo com propriedade e profundidade e principalmente amor.

Porque minha insatisfação, reflexão e questionamentos a indústria farmacêutica canábica importada?          

Uma grande corrida se faz desde 2014, até mesmo antes. Vejo uma corrida desmedida e sem trégua quando entrei no ativismo canabico. Várias correntes, pensamentos, condutas e identidades – tanto antiproibicionista com proibicionista.  Espero que nessa corrida minha filha seja uma sobrevivente, aliás, ela é. Mas o tempo corre contra ela. O tempo para vários pacientes urge.  Mas esse tempo está sendo podado. O tempo está sendo podado por indústrias estrangeiras.

 



O tempo que uma mãe ou pai teria para o auto cultivo concorre com preenchimento de formulários, de uma burocracia assolada pelo Estado;

O tempo que um advogado dispõe ele está judicializando um medicamento importado, caro, em detrimento de uma inicial em autocultivo ou de um cultivo coletivo brasileiro.

O tempo que um grower dispenderia em genética para uma maior e melhor cepa em CBD, THC ou outros canabinóides com tranquilidade, ele esta procurando formas de não ser preso. 

O tempo em que um pesquisador brasileiro poderia se envolver coletando e analisando dados, avaliando os resultados alcançados em sua pesquisa e gerando relatórios, estudos e artigos para melhoria da dos processos canabicos lhe é subtraído em recursos e subsídios, além de coibir essas mesmas pesquisas.

O tempo de um médico em avaliar seu paciente é subtraído pelos mesmos trâmites burocráticos e pela total falta de informação.  E mesmo com informação de formulação importada não saberia o que dizer em modelos brasileiros.

O tempo e agora o movimento de uma mãe de comunidade, da periferia traz consigo para resolver questões de sobrevivência de seu filho. Essa mãe sabe o que é o SUS, sabe ir ao posto de saúde de sua comunidade...  Mas  ela sabe o que enfrentará, ela sabe o que está por vir se o medicamento não estiver na lista do SUS?  Resposta atual: da burocracia de formulários da Anvisa passando pelo custo exorbitante desse óleo  importado até  ser acionada a defensoria publica! Mãos atadas, sem tempo e sem movimento! Dignidade é palavra chave para nós, pacientes.


E nesse mesmo movimento os pacientes estão fazendo o inverso. O médico agora está aprendendo com o paciente, mas ele está realmente disposto a escutar esse paciente que revela o que está acontecendo?  Vi médicos que relutam e refutam essa sabedoria milenar. O tempo se revela um diferencial nesse caso.

Mas questionamentos ainda rodam...

Por que não valorizamos e lutamos pelo nosso cultivo e produto? Por que temos que pagar R$ 3.000,00 ou mais, por mês para que encher o bolso de outrem e nem sabemos como é feito esse produto? Lá fora é tratado como suplemento alimentar e aqui como medicamento de uso compassivo, usado por compaixão, quando nenhum medicamento resolveu ou controlou a patologia... Incoerências deixadas de lado momentaneamente, por que não utilizar esse movimento com nossa inteligência, pesquisa e mão de obra especializada brasileira?

 O mercado poderá ser inundado por indústrias farmacêuticas canábicas estrangeiras e o Brasil sabe fazer escola nessa área se não estivermos atentos e fortes.


* Engenheira eletrônica e mestre em Geofísica
Mãe de Deborah Rosa - 23 anos - síndrome de Dravet

Diretora da ABRACANNABIS


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