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Redução de danos na luta pela regulamentação da Cannabis

Renato Malcher-Lopes*

São raros os que não entendem que as três possibilidades (auto-cultivo, cooperativas e indústria) são não excludentes e complementares.


Na tarde de ontem, Renato Malcher-Lopes, a quem devemos o livro Maconha, Cérebro e Saúde, nos ofereceu importantes reflexões sobre a polêmica que tem movimentado os meios cannabicos: existe a possibilidade de se delinear uma perspectiva comum entre as entidades que trabalham pela legalização da maconha? A postura conciliatória de Malcher evidencia uma vontade que atravessa atualmente muitos atores envolvidos diretamente no debate que tem nos oferecido, apesar dos destemperos, dados preciosos sobre as perspectivas, contradições, diferenças e similaridades entre as entidades que atualmente trabalham por uma nova política de drogas.
 
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Atualmente, existe uma quantidade admirável de pessoas envolvidas na luta pela regulamentação do uso da maconha e seus derivados no Brasil. Muitos querem a regulamentação de todas as formas de uso. Outros demonstram desejar apenas a regulamentação da forma medicinal - o que, mesmo que não creiam nisso agora, no fundo, significa apoiar a regulamentação de todos os usos não abusivos, já que buscar alívio de estresse, reduzir ansiedade social e sentir-se feliz são também processos terapêuticos inerentes aos usos social, religioso e recreativo da Cannabis.
 
Carl Sagan dizia que um dos grandes méritos da Cannabis é fomentar a conectividade e a noção de coleguismo entre seus usuários. É, portanto, bastante paradoxal o fato de haver tanta disputa e sectarismo entre as pessoas que atualmente lutam por alguma forma de regulamentação desta planta no Brasil. Essa luta virou o que parece ser uma disputa pela posse e pelos rumos de uma causa. Todos admiram o poder do trovão, mas alguns se acham mais donos dele do que os outros. Alguns querem só a possibilidade do auto-cultivo, ou do cultivo em cooperativas, mesmo que isto desrespeite a perspectiva de vários pacientes que desejam poder comprar sua medicina canabinoide na farmácia. Claro que há também os que, aparentemente, querem apenas usar seu status científico para impor restrições ao uso direto da planta e de quaisquer formas não patenteáveis da medicina canabinoide. Mas estes últimos são muito pouco representativos dentro da comunidade que tem feito avançar na sociedade brasileira a noção de que a medicina canabinoide é um fato incontestável da natureza, assim como a relação dos seres humanos com as plantas. Mesmo entre aqueles que buscam espaço para a produção em larga escala de medicamentos, são raros os que não entendem que as três possibilidades (auto-cultivo, cooperativas e indústria) são não excludentes e complementares. No entanto, embora sempre usem da ciência quando convém, observa-se que muitos grupos tratam a ciência e os cientistas em geral com a mesma desconfiança com a qual tratam as empresas interessadas em produzir medicamentos a base de canabinoides no Brasil. Quem ganha com isso?
 
A diversidade e a multiplicação das associações de pacientes são vistas com grande respeito e admiração por médicos e cientistas conscientes de seu papel social. Por outro lado, a ideia de poder existir diferentes organizações de médicos e cientistas ligados à medicina canábica /canabinoide é vista com resistência e desconfiança por aqueles que já se organizaram em seus respectivos grupos de whats app, sejam eles médicos ou ativistas. Agora vemos associações de pacientes brigando entre si pela suposta primazia e pela suposta maior legitimidade na forma de organizar eventos científicos...
 
 
Assim, vivemos um cenário surreal de fogo cruzado onde todos os disparos vem de algum representante do campo pró-regulamentação da luta. A realidade biofarmacológica da medicina canabinoide tem sido suficiente para calar canhões conservadores, mas, do lado de cá da luta, os resultados do “fogo amigo” nunca estiveram tão afinados com os objetivos finais dos proibicionistas.
 
Como podemos ter chegado nessa situação se o que há de mais extraordinário na medicina canabinoide é justamente sua interminável versatilidade e seu vasto potencial de expansão? Eu creio que é uma questão natural, uma coisa dos seres humanos mesmo, um processo de amadurecimento num contexto de disputas muito passionais, cheio de preocupações legítimas e também de boas intenções. Mas tem hora que a maturidade precisa ser fomentada. E a forma de fazê-lo é buscar arejar esse ambiente com iniciativas e posturas conciliatórias, colocando-as acima das pequenas diferenças. Sempre que um esforço neste sentido for feito, ficará claro que a busca pela conciliação até seu limite, e o uso do consenso, quando a concordância total não for viável, são formas muito mais produtivas de se lutar pela regulamentação do que ficar atirando coquetéis molotov para cima. A primeira forma favorece a colaboração, a segunda, favorece a discórdia, a fofoca e a desconfiança – que formam, em conjunto, a porta de entrada para o vício em treta.
 
Atualmente, claro, já há muitos que fazem uso consciente e benigno da luta pela regulamentação da Cannabis, mas há aqueles que estão fazendo uso abusivo desta luta. Minha dica para uma reflexão pró-redução de danos é a seguinte: pode combinar à vontade a luta com boas doses de amor, compreensão, tolerância, visão social, visão científica e visão política. Mas evite, a todo custo, misturá-la com seu ego, senão, pode dar a maior nóia...
 
 
* Renato Malcher-Lopes é professor adjunto do Departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade de Brasília (UnB).

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