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Pot in Rio, Mercado e Modernidade Tardia

Rafael Morato Zanatto Arte: J.R. Bazilista

A proibição impede que estes empresários avancem na produção de produtos derivados de maconha, seja ela orientada por propósitos medicinais, recreativos, ou exclusivamente comerciais


O ativismo cannábico brasileiro se divide ideologicamente em três linhas de pensamento. A primeira defende a importância do Estado no desenvolvimento do mercado de maconha. Outra tendência, que floresce mais a cada dia, se inspira no modelo de clubes e associações cannábicas da Espanha, mas com algumas transformações: é em si, mas não para si, ou seja, reúne todos os aspectos culturais dos clubes cannabicos, sem materializar o ponto de partida, o para si da associação de usuários, que é o cultivo associado! Outra mutação interessante da assimilação do modelo espanhol ao contexto nacional é a proposta de produção exclusiva de cannabis para uso medicinal, experiência em curso a partir da formação de associações como a ABRACANABIS, AMA+ME e AMEMM. Por último, temos a proposta de livre mercado, ou seja, a ampla liberdade de comércio no varejo e no atacado. Todas estas tendências encontram-se contempladas pela redação do projeto de lei registrado por Jean Wyllys no Congresso Nacional, fato que expressa a coesão do movimento que se agrega sob pauta única: a legalização da maconha!

Tema de grande complexidade, nos deteremos apenas no exame das propostas de livre mercado, levando em conta o atual estado de desenvolvimento do empresariado no país.

A grande viabilidade econômica do mercado de maconha já é senso comum, que nem vale gastar muita tinta, como observamos ao apreciar a experiência do estado do Colorado. Parece ser consenso também que as associações e clubes cannábicos espanhóis, apesar de não pautarem suas atividades em fins lucrativos, acabam como efeito colateral de suas atividades acumular saldo positivo em suas contas, proveniente das boas colheitas e arrecadação de novas inscrições, como foi o recente caso da Pannahgh. Em recente inquérito, o caixa da associação contava como 500 mil euros depositados, demonstrando a transparência desta importante associação dentro das Federações e Clubes Cannábicos da Espanha. Outro senso comum é o fato de que a existência apenas de associações, em um contexto isolado, acaba por prolongar o fôlego da corrupção, na medida em que empreendimentos capitalistas formam ou infiltram-se em associações de usuários, valendo-se da excelente fachada para lucrar, mas que acaba por alimentar todo um circuito de ilegalidade que poderia ser incorporado, desde o princípio, em um projeto de regulação bem definido.

O Estado certamente lucraria também, mas como, após eliminar estes problemas do caminho, analisar em que medida o subdesenvolvimento brasileiro pode prejudicar a formação do mercado nacional de produtos e derivados de cannabis ou componentes da cultura cannábica?

Tais reflexões aqui inseridas são relativas a experiência vivida na terceira edição do Pot In Rio. Diferentemente de outras edições, que incorporavam debates, mostras, competições, denotando a presença das três tendências do movimento cannábico, esta última encerrou-se no modelo empresarial. O evento reuniu stands empresariais das mais distintas modalidades de produtos relacionados à maconha. A iniciativa de Mandacaru, editor da revista Maconha reuniu lojas de cultivo, marcas de seda, bongs, tabacarias em geral, além de roupas das mais descoladas, muitas delas feitas de cânhamo. Não poderiam faltar as laricas, cervejas e encontros com os personagens mais tradicionais do ativismo e do empreendedorismo cannábico.

Além dos stands, pude presenciar e saborear as experiências genéticas realizadas pelos jardineiros brasileiros, que hora ou outra apresentavam flores. Em uma delas, Fabiano me atraiu para uma das rodas enquanto levantava dados para sua pesquisa antropológica. Meu corpo cambaleou quando ingeri os vapores do cruzamento de Kush Pakistan com a Chitral Kush Auto... Demorei para recuperar o fôlego... Mais umas voltas entre os stands e o papo prosseguiu na margem da tenda da Raiz Cultivo Indoor, cujas luzes lilases e amarelo sol capturavam minhas ideias, atraindo-me como uma mosca hipnotizada... Ao longe vejo doutor Eusébio se aproximando, ser admirável, conhecedor, pesquisador e articulador da cannabis medicinal.

Já fazia um ano que o havia encontrado, no Festival da Maconha em Filmes e Debates, promovido pelo Coletivo João do Rio que rendeu a introdução da Expedição Cannábica Rio-Buenos Aires-La Plata[2]. Dr. Eusébio me ofertou uma Chisel dourada, batizada pela mescla de sua procedência, NYC com Diesel. Os vapores embalaram a conversa sobre associações cannábicas, medicinais e recreativas. Outro personagem das antigas, cultivador de Angolas, ofertou-nos misseis dourados de sabores implacáveis, rebatidos com cervejas e sandubas que capturavam os lariquentos.

Por último, sobre este ambiente inusitado, marcado pela presença da boa política cannábica, fui conduzido por Fabiano ao stand da Photogenesis, onde recebemos uma verdadeira aula de cultivo, especificamente, como regular o PH da água para potencializar a absorção de nutrientes ao máximo. Diante das controvérsias, demonstrou-nos como a água se comportava sob a ação de fertilizantes inertes usados em cultivos hidropônicos, além dos demais fertilizantes. Não tardou para nos apresentar, como verdadeiro vendedor de elixires milagrosos, a última novidade: Um líquido que estabilizava o PH em 6,8 sempre. Ilusionismo? Enfim, excelente solução para cultivadores iniciantes ou preguiçosos. Após adquirir alguns números de revistas cannábicas latino-americanas e nacionais na tenda da Sem Semente, afinal é sempre bom ilustrar-se sob o que se passa com nossos vizinhos, vazamos rapidamente para o terminal rodoviário, voltando a São Paulo com ideias mal formadas sobre a experiência, devidamente digerida após dois meses de distância.

Em conjunto, a questão que me atormentou desde o princípio foi o fato de que a proibição da maconha, enclausurada na indecisão e reacionarismo de nossos políticos está a produzir um efeito devastador nos defensores do modelo de negócio. Em que medida? A proibição impede que estes empresários avancem na produção de produtos derivados de maconha, seja ela orientada por propósitos medicinais, recreativos, ou exclusivamente comerciais.

O atraso político condena os empresários nacionais ao atraso econômico, ao subdesenvolvimento. Quando finalmente legalizarmos a maconha, e não restam dúvidas quanto a isso, estaremos prontos para a colonização empreendida vorazmente por empresas estrangeiras, que agora saem na frente a galope e que no futuro terão acumulado capital necessário para investir na conquista de outros mercados consumidores. É incrível pensar que este país padece de um verdadeiro modernismo reacionário, quando se trata historicamente da maconha, e...

Não poluiremos aqui de exemplos, mas um deles é o fato que o país proibiu a maconha (1938) após curto espaço de tempo em relação aos Estados Unidos (1937), fazendo com que nossos políticos e especialistas se gabassem de estar implantando aqui ideias provenientes dos países mais desenvolvidos do mundo. Mas que passados quase oitenta anos da proibição da maconha, parece persistir o comportamento de ignorar o que está ocorrendo nos países vizinhos, sejam eles mais ou menos desenvolvidos, quando sente-se o cheiro da liberdade. Se com o advento da proibição da maconha podemos demarcar a existência de um modernismo reacionário, agora, em nosso presente, o modernismo parece ter sido sacrificado em benefício de uma reação que única e exclusivamente está protegendo seus interesses. Imagino que a taxação de drogas seja um problema para empresários ilegais do ramo.

Será que os empresários que investem no mercado de cannabis (em sí) estará a salvação do mercado de cannabis numa hipotética abertura política para o desenvolvimento econômico desta tendência? Será que nosso país prezará pelos monopólios que hoje dominam o mercado ilegal... Parece que sim, e o melhor a fazer é não fazer nada – este parece ser o lema oficial. Ou ainda, outros procuram endurecer as regras, facilitar a aquisição de armas, liberar alimentos transgênicos, interditar todas as escolhas referentes ao uso do próprio corpo, o Estado amplia seu controle para privilegiar setores da iniciativa privada. Como poderemos pensar na expansão dos capitalistas nacionais que estão agora a se fortalecer se as barreiras políticas ao impedir a legalidade destes negócios favorecem a ampliação empreendimentos ilegais e dominação do mercado nacional por empresas e capital estrangeiro. O Estado agirá para regular estas atividades, contribuirá para a formação de novos monopólios ou adotará uma postura definitiva sobre o assunto. Resta-nos esperar que o modernismo ressuscite da cova em que foi enterrado. O que fazer quando, além de lutar pela autonomia individual no interior do estado nacional, outro problema que se coloca é o subdesenvolvimento?

 

* Doutorando em História pela UNESP FCL-Assis. É pesquisador associado ao grupo de pesquisa Maconhabras/CEBRID – Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas/Escola Paulista de Medicina – UNIFESP. Editor do site www.cannabica.com.br.

[2] http://growroom.net/2014/11/11/expedicao-canabica-rio-buenos-aires-la-plata/


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