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O medicinal contra o recreativo? ou Os fins não justificam os meios

Rafael Morato Zanatto *

"Tínhamos que estar se discutindo a criação de uma AGENCIA REGULADORA DA CANNABIS NO BRASIL! Essa eh a letra, e apenas não mendigar importação.” 


Colabore com o SUG 8. Financie o ativismo em Brasilia:

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Em debate público, um ativista despertou a ira do movimento cannábico brasileiro, discussão esta que já rende mais de uma centena de comentários no Facebook. O debate começou após a pergunta sobre a posição de um ativista pernambucano sobre o uso recreativo da cannábis. Em declaração, o ativista em questão afirmou que concorda que a campanha Brasil Sem Drogas se manifeste, em suas palavras, (...) “contra o uso recreativo, apenas usando chavões conhecidos como, ninguém precisa de droga, droga financia o tráfico, ou até aquele chavão de que droga mata. Porem a ideia dessa campanha foi um erro. Se vocês querem o nosso respeito e principalmente das famílias, defendam o uso medicinal em contrapartida ao uso recreativo. Assim vocês estão sendo muito mais eficazes, ganhando nosso respeito e iremos respeitar QUALQUER OPINIÃO.”  

Ora, assim não dá. Ou aqui ou ali. Não há um muro largo neste debate,  pois aceitar  declarações contra o uso recreativo é colocar a cabeça na guilhotina, que ninguém precisa de droga é um cego, que “droga financia o tráfico”, não entendi, porque se a droga, ou como prefiro chamar esta querida planta de colírio dos olhos, é a mercadoria do traficante, e se tráfico por sí só é a própria circulação desta, o comentário se esquece de mencionar que  para encerrar a cadeia, é necessário que se tenha consumo, e se pretendia dizer isso, manifestou sua posição favorável à uma tese a la Tropa de Elite. Para pregar os últimos pregos em seu caixão, ainda concordou com o argumento de que a maconha mata.

O professor Carlini já dizia na década de 1970 que havia descoberto um modo de provar que a maconha causava mortes, a partir de seus estudos com ratos. Era simples, bastava pegar um rato e asfixia-lo, pressionando sua cabeça contra um saco de maconha. E esta piada tinha uma função específica: demonstrar que a associação da maconha com mortes, assassinatos, homossexualidade ou cor de pele estava fundada em procedimentos analíticos duvidosos, num conjunto bastante extenso de trabalhos médicos brasileiros. Mas parece que, com esta postura arrivista, o ativista afirma respeitar qualquer opinião. Já dizia Mestre Eckhart, um místico alemão do século XIII que se deus está em tudo, logo não está em lugar nenhum. Acho que esta lição seria útil, mas me parece que ao escolher se associar aos interesses destas forças reacionárias, ou mesmo abrir uma via de negociação, oferecendo em troca de apoio negar as liberdades individuais, criminalizar a pobreza, crime organizado, corrupção, Laranjeiras, não parece querer realmente transformações efetivas no país, alvejar diretamente o problema.

Pelo contrário, o diálogo com esses interesses, já diriam os anarquistas que os meios condicionam os fins, apenas irá atrasar em anos a legalização do uso recreativo, seria condenar por mais alguns anos o movimento cannábico ao refluxo histórico, ou mesmo tentar, porque, como em um dos comentários, não passarão. E não queremos a mão ou o braço, queremos dar um rabo de arraia e efetivamente produzir transformações na sociedade.

Pensando ser capaz de compreender a multiplicidade de fatores que envolve o movimento cannabico, o ativista ainda ampara seus argumentos no modelo californiano. E lá se foi mais um deslumbrado que não entendeu que importar modelos implica em simplificações, que distorcem o modelo original, e nisso o Brasil tem experiência. O réu pensa mesmo que os médicos brasileiros iriam receitar maconha aos usuários? Parece piada.

Acuado, o ativista passou a chamar seus inquiridores de crianças, infantis, com uma infantilidade singular, e se não bastasse o desespero o fez dizer que entenderam errado. Responder mesmo as acusações de que foi apenas para Brasília divulgar seu produto, passou longe de suas preocupações. Foi gargalhando que li a declaração de que a Marcha da Maconha não funciona. Nem vale gastar tinta sobre essa questão. Mas em seguida afirmou que fez uma em sua cidade, que é João Pessoa, e logo em seguida, a casa caiu. Rênio Torres, um dos organizadores da marcha disse que o ativista nunca ajudou em nada:

“Desculpa ai ........................, você nunca ajudou na organização da marcha aqui em Jampa! Estamos nesse movimento desde 2008 na rua e muito antes na internet, levando porrada da polícia, detidos, processados por apologia, problemas profissionais e etc... Dizer que a marcha não funciona? É assumir ser completamente leigo em relação a política de drogas no Brasil e no mundo nos últimos anos. Esse ótimo momento que vivemos se deve ao trabalho de vários ativistas que debatem diariamente, principalmente num estado extremamente preconceituoso como o nosso, essas pessoas estão preenchendo os espaços sobre drogas, se infiltrando a muito custo nos conselhos municipais e estaduais para defender uma opinião contrária a da maioria. Acho de muita coragem os pais pessoenses que estão se expondo para defender o uso medicinal do CBD. Mas a questão é: Eles estão lutando simplesmente por uma causa pessoal ou por uma causa maior?”

Sem perceber, já no caixão, o ativista parecia deitar sobre um tapete de pregos. O “cafetão de criancinhas doentes”, como foi chamado, lamentou ter sido “escolhido pelo movimento para essa devassa”. Não seria um daqueles que, nas palavras de um membro do movimento, “(...) querem se apropriar do discurso antiproibicionista para conseguir uma legalização seletiva – que inclua somente o CBD e mantenha o status quo da planta in natura - com fins econômicos escusos.” Concluindo suas afirmações, destacou que é “contra um camarada ter acesso a uma audiência no Senado para oferecer seu produto e falar que é contra a legalização. Somos contra alguém botar a perder todo o esforço de anos e anos de ativismo em causa própria. É divisão de águas, mesmo. Ou é a favor da legalização ou é a favor do lobby.” Outro dos comentários destacou a ocorrência de “‘infiltrados’ entre os ‘CBDistas’ que querem exatamente isso: atrasar a mudança da política de drogas. Afinal, o paliativo que é a regulamentação do CBD os interessa, e muito, financeiramente.” Outra das ponderações procurou compreender o nível de entendimento geral da sociedade em relação a maconha, identificando que uma lei que privilegie o uso medicinal e exclua o recreativos significaria uma verdadeira estagnação do processo. “milhões continuarão se fodendo sem poder plantar, ou montar uma cooperativa. Em vez de discutir se rola flexibilização da importação, diminuição da burocracia. Tínhamos que estar se discutindo a criação de uma AGENCIA REGULADORA DA CANNABIS NO BRASIL! Essa eh a letra, e apenas não mendigar importação.”

Deste debate necessário a lição que fica é a seguinte: lutamos pela planta, pelas associações de cultivo, pela liberdade, e não apenas pela maconha como remédio – simplifica-la a esta atribuição implicaria ignorar o que está diante do nariz.

* Doutorando em História pela UNESP FCL-Assis, mestre e graduado em História pela mesma instituição. É pesquisador associado ao grupo Maconhabras/CEBRID – Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas/Escola Paulista de Medicina – UNIFESP e editor do site www.cannabica.com.br, da ACuCa – Associação Cultural Cannábica de São Paulo.


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