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Nesta terra, em se plantando, tudo dá!

Patrícia de Oliveira Rosa* Arte: Camô Criativa

ABRACannabis defende o direito ao cultivo individual e coletivo que cada pessoa tem de promover sua própria saúde e autocuidado.


A fim de desenvolver o debate sobre o associativismo cannábico no Brasil, a Cannabica tem o grande prazer de contar com mais uma contribuição de Patrícia de Oliveira Rosa, diretora da ABRACANNABIS, associação carioca focada no fomento técnico e educacional ao autocultivo e cultivo coletivo. Para a autora, o cultivo de maconha se insere em um exercício de autonomia e autocuidado que visa preservar valores como direitos humanos, liberdade individual e acesso universal aos benefícios terapêuticos da maconha. Em conjunto, você poderá se apropriar da dinâmica de funcionamento da associação carioca, se acercar das ações por ela desenvolvidas aliadas ao questionamento direto as medidas que visam manter a ilegalidade da planta no Brasil a fim de fomentar a importação em detrimento ao desenvolvimento de cultivos em solo nacional, terra ensolarada onde se plantando tudo dá. “Contra o tráfico e o capital, maconha no quintal”! Esperamos que outros coletivos cannábicos e associações se interessem pelo debate e nos encaminhem suas contribuições textuais onde compartilhem conosco suas visões de mundo que interessem diretamente à formação do associativismo cannábico no Brasil. Excelente Leitura!

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A associação ABRACannabis foi criada em 08 de março de 2015. Ela  nasceu com o objetivo de promover inclusão social, o respeito aos  direitos humanos e as liberdade individuais de cada cidadão. Lutando pela democratização do acesso a todas as formas de uso do vegetal cannabis, em especial em suas aplicações medicinais. Nossa atuação é baseada em uma cultura de acolhimento e união para que juntos vençamos o medo e o preconceito, superando as discriminações impostas por uma legislação equivocada que muito sofrimento tem trazido a nossa sociedade. 


Somos uma associação formada por equipe multi e transdisciplinar com atuação nas áreas científica, farmacêutica, médica, jurídica, artística e humana - psicologia, antropologia, sociologia, filosofia, etc - que tem como foco promover a inclusão social e o respeito aos direitos humanos, principalmente dos pacientes que utilizam a cannabis medicinal, através do apoio à pesquisa científica e educação, na representação social, nas políticas públicas e consultas promovidas pelas agências regulatórias, além de todo o apoio jurídico aos pesquisadores e pacientes.

ABRACannabis defende o direito ao cultivo individual e coletivo que cada pessoa tem de promover sua própria saúde e autocuidado. Composta de uma autonomia questionadora, engajada e cônscia de sua condição humana.

                                                                                                      

 

\"Ao longo da história humana, quando nossa espécie se deparou com o assustador e aterrorizante fato de não sabermos quem somos, ou para onde vamos nesse oceano de caos, foram as autoridades - política, religiosa ou educacional -
que tentaram nos confortar nos dando ordem, regras, regulamentos, informando -
 formando nas nossas mentes - à realidade deles.  Para pensarmos por nós
mesmos devemos questionar a autoridade e aprender a nos colocar
num
estágio mental aberto vulnerável, vulnerabilidade caótica,
confusa, para nos informarmos.”

                                                                                                         – Timothy Leary –

 

 

ABRACANNABIS integra a Plataforma Brasileira de Política de Drogas – PBPD desde 2015;

Desde março de 2016 participa de um projeto com testes e ensaios clínicos com a Fundação Oswaldo Cruz, FioCruz, com a finalidade de produção nacional do extrato de cannabis;

Parceira no projeto de extensão com a UFRJ - Farmacannabis. Finalidade de realizar testes de validação dos extratos importados e artesanais;

Em parceria com Instituto Estadual do Cérebro realiza estudos observacionais com amostra de pacientes com epilepsia e síndromes raras utilizando o extrato de Cannabis;

Elabora artigos tratando sobre política de drogas com reflexões, pesquisas e análises científicas. Ex.: Artigo - A “fumaça do bom direito” na Revista Platô: Drogas e Políticas – PBPD;

Parceiro na REFORMA - Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas. Grupo de advogados que auxiliam com compartilhamento de informações jurídicas e no acesso à justiça para seus associados;

Cursos de cultivo canábico & redução de danos para associados da ABRACANABIS e para as associações como Apepi no Rio de Janeiro e para associados da CULTIVE em São Paulo;

Treinamento e acompanhamento de cultivo de cannabis a pacientes com prescrição médica, autorização e salvo conduto para associados;

Participação em congressos e seminários e debates; apoio à pesquisa acadêmica em universidades;

Promover, patrocinar, participar e organizar encontros com pessoas físicas e jurídicas interessados em debater propostas para regulamentação do uso da cannabis, políticas e práticas de redução de danos, políticas, práticas de segurança e saúde pública relacionada à repressão do uso e tráfico ilícito;

Empenha-se pelo salvo conduto tanto pelo paciente associado quanto da nossa associação, inclusive temos quatro pacientes com salvo-conduto.

Que a assinatura de pesquisadores e cientistas

Sejam submetidas,

Que a assinatura de médicos

Sejam respeitadas,

Que as vozes encarceradas

Sejam escutadas.

Na assinatura do Judiciário,

Na assinatura do Legislativo e Executivo

Seja formalizada.

Para que se descriminalize, legalize e regulamente

A maconha no Brasil e no mundo.

Que esse tricoma no topo da planta signifique o cultivo.

Que a caneta tinteiro também representado no topo da planta

Signifique esse pedido, essa demanda. A súplica da planta.
Assinai-vos.

Pense por você mesmo, reconecte-se.
Pense por você mesmo e questione a autoridade.

 

Reserva  de Mercado
Para a Anvisa, a cannabis é primeira planta na lista “E”, da portaria 344. Não podemos exportar importar e manipular sob pena de 8 a 25 anos de cadeia. Se uma pessoa importa 20 sementes de maconha o STJ a classifica de traficante internacional. No entanto, podemos importar CDB e THC de empresas farmacêuticas.

Empresas multinacionais entram no mercado Brasil importando cannabis, mas nós brasileiros, nós, da indústria brasileira estamos proibidos terminantemente de plantar. Eis aí uma tamanha incoerência. Cultivadores brasileiros estão com a prisão decretada se descobertos, enquanto cultivadores e empresários estrangeiros exportam com ganhos avassaladores e surpreendentes. O lucro para essas empresas são exorbitantes. Será mesmo reserva de mercado as avessas, o termo corrente dado, pelo ativismo canábico?

 

Pesquisa e Patente
E quanto à pesquisa? O artigo 2 da lei 11.343, ampara a cannabis para pesquisa com fins medicinais.  Está garantido por lei. E o que parte da pesquisa brasileira esta fazendo?  Importando cannabis e fomentando congressos da indústria farmacêutica estrangeira.

Na verdade é um lobby da indústria farmacêutica internacional, uma guerra comercial, a clássica corrida - a corrida pelo ouro verde, dada pela indústria multinacional e transnacional com chancela brasileira. Esse lobby estará presente se sintetizarmos o CBD e THC – onde ocorrerá a patente. Alias o THC sintético já é liberado para produção aqui no Brasil.

 

Indústria Brasileira
Sem esquecer que o governo é acionado para uma importação caríssima, e este governo proíbe a indústria brasileira de cultivar, de fazer seu próprio medicamento/óleo, de gerar emprego e renda, com custo baixo.

 

Suplemento alimentar x Uso compassivo
No exterior esse mesmo óleo é vendido como suplemento alimentar e aqui é vendido como medicamento, onde a Anvisa requisita para os pacientes e seus responsáveis formulários, laudos, termo de responsabilidade, termo de importação para que se tenha um ofício da mesma. Aqui no Brasil a cannabis se tornou medicamento de uso compassivo, onde não há mais nada a fazer pelo paciente ou uso por compaixão.

 

Legalização
O mundo está legalizando ou em processo de, mas... e aqui? Todo o processo está atrasado. Talvez, quando todo o planeta se der conta do fracasso da guerra às drogas e pelo menos descriminalizar a maconha, o Brasil começará a enxergar a brutalidade que cometeu por parte de seus governantes.

Se plantando tudo dá, temos todas as condições climáticas aceitáveis. Acesso à planta, pois ela não é do mercado e nem do Estado. Acesso ao remédio, ao óleo e em todas as suas formas. Lutamos pela descriminalização, legalização e regulamentação da cannabis. Há que se discutir, conscientizar, conversar e debater principalmente, para a grande parte da população que repete, sem conhecimento histórico, político e econômico, a demonização do ciclo da cannabis.

 

*Patrícia de Oliveira Rosa
Eng. Eletrônica - Mestre em Geofísica
Diretora da Abracannabis
Mãe de Deborah Rosa - 23 anos - Síndrome de Dravet
Site: www.abracannabis.org.br


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