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Minha visão sobre o evento do Museu do Amanhã

Ricardo Ferreira

Em todos os casos percebi que as mudanças no acesso foram progressivas, e que todas essas modificações tinham como motor movimentos sociais fundamentados na demanda por melhora na qualidade de vida, mas com argumentações cientificamente embasadas por médicos, pesquisadores, e pelo mercado produtor


Há pouco mais de vinte dias iniciamos em nosso meio um debate sobre as perspectivas para o associativismo cannábico no Brasil. Até o momento, pesquisadores e coletivos tem nos enviado suas contribuições textuais, para que o debate, e principalmente novas práticas, sejam delineadas no horizonte. Hoje recebemos um artigo do Dr. Ricardo Ferreira, médico brasileiro pioneiro no emprego terapêutico da maconha para tratamento de dor. Em seu texto, Ferreira de forma didática e amparado em profundos estudos das aplicações terapêuticas ao redor do mundo, posiciona sua larga visão de mundo a serviço do esclarecimento, ao nos informar que em todos os países observados as transformações da política de drogas foram impulsionadas pela ação direta de movimentos sociais que reivindicavam a melhora na qualidade de vida, em sua pluralidade social. Ferreira vê com bons olhos o evento do Museu do Amanhã, para quem trará um impacto positivo na transformação gradativa do acesso à cannabis e nos informa da fundação da SBEC – Sociedade Brasileira para Estudo da Cannabis, que têm por objetivo “agregar médicos, farmacêuticos, pesquisadores, e profissionais com interesse nas aplicabilidades terapêuticas da maconha”, a fim de “argumentar em pé de igualdade com instituições governamentais e órgãos como ANVISA e o Conselho Federal de Medicina”. Notícias estimulantes que procuram esclarecer sobre as distintas possibilidades do emprego da cannabis como medicamento produzido por autocultivo e cultivo coletivo sem fins lucrativos – modelos que trazem uma dramática redução nos custos do tratamento, além de ampliar o acesso das terapias cannabicas. Em conjunto, o texto de Ricardo Ferreira nos convida a uma reflexão conciliatória que favorece a ampliação da pauta que temos discutido em nossa folha negra: as perspectivas para o associativismo cannábico no Brasil. Excelente leitura!

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Meu nome é Ricardo Ferreira, e sou médico com atuação totalmente focada no atendimento de pessoas portadoras de patologias da coluna vertebral. De todos que me procuram quase a totalidade têm a dor como principal sintoma.

Ao longo de quase 20 anos fui me aprimorando nos meios diagnósticos e terapêuticos da dor. E apesar de todo o conhecimento adquirido ainda existiam pacientes que continuavam sofrendo com fortes dores a despeito de tudo o que eu fazia, e isso foi gerando uma frustração cada vez maior.

Essa frustração me fez buscar alternativas. E foi então que eu comecei a pesquisar sobre métodos terapêuticos não convencionais. Nesta busca me deparei com artigos científicos de boa qualidade e com coerência quanto aos efeitos terapêuticos da Cannabis no controle de dores até então consideradas intratáveis. Ao mesmo tempo passei a prestar atenção nas consequências na qualidade de vida de pacientes que moravam em regiões onde os médicos podiam prescrever a maconha como medicamento.

Através desta busca me convenci que a maconha realmente tinha potencial para ajudar muitos dos meus pacientes até então sem solução. Contudo, junto com esta convicção progressivamente também aprendi que maconha não é apenas uma erva com THC, mas que na verdade trata-se de uma planta com centenas de diferentes elementos (canabinóides e terpenos) que dependendo da sua genética, métodos de cultivo, guarda, processamento, e forma de consumo; o resultado do seu uso será bastante distinto.

Apesar de saber de tudo isso, a regulamentação atual da ANVISA, junto com a impossibilidade da importação individual de produtos com THC, me restringe a prescrever apenas extrato de Cannabis sativa rico em CBD. Além desta restrição, como qualquer médico eu só posso prescrever extratos feitos fora do Brasil e para pacientes que não respondam a todas as alternativas disponíveis para casos similares ao seu, ou seja, que sejam enquadrados com indicação de forma compassiva (por compaixão).

 

Desta forma, na prática seu eu me deparo com um caso que eu acredite que a Cannabis tem potencial de ser útil, eu primeiramente tenho que tentar todos os tratamentos com os meios tradicionais, e caso estes não funcionem eu começo a pensar se vale a pena prescrever a utilização de um extrato de CBD importado.

Esse questionamento se faz em função da burocracia, preço, dificuldade de acesso, falta de confiança na padronização do produto, e acima de tudo porque eu sei que o paciente só terá acesso a uma forma de cannabis (extrato rico em CBD); o que contradiz a experiência dos pacientes em lugares como a Holanda e outros, onde cada paciente encontra seu alívio em diferentes espécies, dosagens, e formas de uso.

Apesar de todos estes questionamentos, como atendo muitas pessoas com dores altamente incapacitantes e refratárias, acabo prescrevendo estes extratos para várias pessoas.

Em coerência com as regras da ANVISA determino um produto específico, com dosagem, frequência de uso, e preencho toda a burocracia necessária.

Atualmente a concorrência fez com que o preço caísse bastante, sendo possível comprar 5000 mg de CBD por aproximadamente U$300. Na maioria dos casos estas 5000 mg serão consumidos ao longo de 3 meses, o que gera um custo mensal de U$100. Para muitos isso parece razoável, mas temos que pensar que estes pacientes nunca utilizam estes extratos como seu único remédio, mas sim como um dos vários itens da sua prescrição, e isso chamamos de tratamento multimodal.

Mas a questão vai muito além do custo. Tenho certeza que muitos pacientes se beneficiariam ainda mais se tivessem acesso a variedades e meios de consumo diferentes dos que temos disponíveis. Essas diferentes concentrações de canabinóides e terpenos seriam capazes de promover seu retorno à capacidade produtiva, com chance de mudar positivamente suas vidas.

Em relação ao custo, não há dúvidas que uma vez regulamentada a produção através de coletivos e/ou instituições sem fins lucrativos haverá uma dramática redução de custo. Além da queda do preço, haverá maior oferta de produtos feitos de diferentes variedades com inúmeras possibilidades de concentrações de canabinóides e terpenos. O que como já foi dito previamente devolverá a qualidade de vida para muitos pacientes.

Também não podemos esquecer que em muitos lugares onde a maconha já foi regulamentada como medicamento, que muitos dos pacientes e familiares preferem e são bem sucedidos cultivando e processando suas próprias plantas. Desta forma, esta alternativa também tem que ser respeitada e fazer parte de uma das formas de acesso.

 

(Cultivo de uma Associação Cannábica na Espanha, de usuários medicinais e recreativos (uso social))Foto: El Diário

 

Recentemente de debrucei no estudo de como aconteceram às regulamentações da maconha como medicamento e para consumo social em alguns lugares do mundo. Revi mais profundamente a história no Canadá, Holanda, Estados Unidos, Israel, Jamaica, e nosso hermanos Uruguai, Argentina, e Chile.

Em todos os casos percebi que as mudanças no acesso foram progressivas, e que todas essas modificações tinham como motor movimentos sociais fundamentados na demanda por melhora na qualidade de vida, mas com argumentações cientificamente embasadas por médicos, pesquisadores, e pelo mercado produtor.

Por isso apoio integralmente qualquer tipo de iniciativa, seja ela pública ou privada que incentive as pessoas e a sociedade a questionarem sobre o valor da maconha como meio de transformação de histórias de vida.

Desta forma, apesar de todas as críticas quanto ao financiamento e o possível viés comercial do evento que será realizado em maio no Museu do Amanhã, tenho certeza que só o fato de ter a maconha colocada como foco de discussão em um grande evento em um palco tão emblemático como o Museu do Amanhã, trará um impacto extremamente positivo perante a sociedade brasileira para a quebra de paradigmas sobre a maconha, e a consolidação do uso desta planta como medicamento.

Visando participar de forma ainda mais ativa nessa discussão foi fundada a SBEC (Sociedade Brasileira para Estudo da Cannabis). Esta sociedade tem como objetivo agregar médicos, farmacêuticos, pesquisadores, e profissionais com interesse nas aplicabilidades terapêuticas da maconha. Através desta união pretendemos criar uma plataforma para troca de experiências, informações, e conhecimento científico sobre o tema da maconha como medicamento.

Ainda estamos em processo de formalização, mas muito em breve pretendemos além de propagar abertamente conteúdo cientifico relevante sobre as propriedades médicas da maconha, argumentar em pé de igualdade com instituições governamentais e órgãos como ANVISA, CFM, conselhos de classes e especialidades.

 

Ricardo Ferreira, MD

Coluna e Dor

Dr. Ricardo Ferreira formou-se em medicina nos anos 90. Fez residência médica em ortopedia e traumatologia na UFRJ, e acumula em sua carreira mais de dez títulos em sua área, entre eles: Especialista em Ortopedia e Traumatologia pelo MEC, pela SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e AMB (Associação Médica Brasileira); Membro Titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, e Sociedade Brasileira de Cirurgia da Coluna; Membro da Sociedade Norte Americana de Coluna (North American Spine Society – NASS), e Especialista em Coluna e Membro da AO Spine International, Especialista em DOR (SBED), e MBA em Gestão de Saúde na COPPEAD. Parte de sua formação foi feita em um renomado centro de coluna na Europa, de onde ele trouxe algumas de suas técnicas, que ainda são consideradas pioneiras no Brasil. Informação retirada de: https://budmaps.com.br/listando/dr-ricardo-ferreira/

 

Para saber mais sobre o debate, você pode encontrar aqui as publicações associadas:

Associações Cannábicas, Perspectiva Comum?, de Rafael Morato Zanatto

http://www.cannabica.com.br/secoes/politica/associacoes-cannabicas-pespectiva-comum

Tempo e Movimento Canábico, de Patrícia de Oliveira.

http://www.cannabica.com.br/secoes/politica/tempo-e-movimento-canabico

Questionamentos da APEPI sobre a polêmica, de Margarete Lins.

http://www.cannabica.com.br/secoes/politica/questionamentos-da-apepi-sobre-a-polemica

Quanto ao debate e reflexão sobre a indústria farmacêutica canábica, de Rafael Evangelista.

http://www.cannabica.com.br/secoes/politica/quanto-ao-debate-e-reflexao-sobre-a-industria-farmaceutica-canabica

Redução de danos na luta pela regulamentação da Cannabis, de Renato Malcher –Lopes.

http://www.cannabica.com.br/secoes/politica/reducao-de-danos-na-luta-pela-regulamentacao-da-cannabis

Nesta terra, em se plantando, tudo dá!

http://www.cannabica.com.br/secoes/politica/nesta-terra-em-se-plantando-tudo-da

 

 

 

 


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