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Maconha em Bandeirantes-PR: (In) formação no interior

Rafael Morato Zanatto

No evento realizado no dia do biólogo, foi lançada a semente para mais uma Marcha da Maconha no interior


Como demonstrei no artigo I Simpósio Maconha e Sociedade[1], realizado há dois meses na cidade de Assis, a formação obteve no corpo a corpo resultados expressivos, alcançando a emissora de rádio local e as capas dos pequenos jornais da cidade. Um verdadeiro acontecimento em uma cidade com pouco mais de 100 mil habitantes. Se em São Paulo, os movimentos antiproibicionista em suas práticas de formação geralmente pregam para convertidos, no interior o cenário é distinto: existe uma diferença temporal entre a capital e o interior, como pontou Ernst Bloch em Herança deste tempo. Como avançar com o ativismo cannábico ao interior sem considerar os distintos níveis de penetração da difusão das iniciativas realizadas nas capitais e em grandes cidades do país?

No caso de Assis, o clima de novidade favoreceu a difusão das ideias cannábicas em escala mais horizontal que às realizadas pelos grandes meios de comunicação. O corpo a corpo é importante nas pequenas cidades, e a consciência que nela se desperta favorece o estabelecimento de laços de solidariedade que fortalecem, pelos vínculos humanos, células cannábicas no interior que estão a se integrar no movimento nacional pela legalização da maconha, e para determinada tendência do movimento, de outras drogas. Trata-se de enfrentar o problema das drogas em bases que distem dos mitos que corroem o bom senso, tão massacrado por uma campanha ideológica racial e autoritária que inculcou na psicologia coletiva que a maconha é e para sempre será o flagelo da humanidade! Assim será se não ampliarmos as discussões em escala nacional, na base, no interior das comunidades, e um passo fundamental é a organização coletiva e autônoma destas forças que afloram no terreno do ativismo. Como favorecer o florescer e fortalecer os laços entre coletivos que despertam para a questão da Maconha?

Muitas questões, mas esta é uma etapa legítima dentro do conjunto de etapas que estão se desenvolvendo em diferentes campos do ativismo, do qual participam capitalistas (livre mercado), socialistas (estatal) e anarquistas (associações). A transformação efetiva da realidade nacional demanda um esforço fundamental: entender os problemas de difusão. A internet não basta, o impresso não basta, devemos ser criativos, transformar a palavra em um ato de liberdade!

Na cidade de Bandeirantes, no Paraná, realizou-se, através da iniciativa dos professores da UENP Fábio Seiva, Roberta Ekuni, Mayra de Carvalho, Bruno Souza, colegas e muitos alunos, o dia do Biólogo, cujo tema central foi a regulação da maconha, entre diversas outras implicações. A programação agregou oficinas de confecção com bambu e Yoga, além de troca de livros e confecção de um mural pelos alunos. Nesta cidade com pouco mais de 35 mil habitantes e movimentada pelo agronegócio, foi com surpresa que nos deparamos com uma força coletiva, que ali já existe, mas que precisaria se integrar solidariamente a esta comunidade que se reúne sob pauta integral da legalização da Maconha.

Do conjunto político-pedagógico formulado para Bandeirantes, André Kiepper, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, esclareceu questões concernentes aos desdobramentos da regulação da maconha no estado do Colorado, nos EUA, além de apresentar o paradigma uruguaio, mostrando a viabilidade da combinação entre iniciativas do estado aliadas ao livre-mercado e às associações. Lucas Maia, pesquisador do Maconhabrás/ CEBRID, apresentou ao público de biólogos, farmacêuticos, enfermeiros e outros futuros profissionais questões próprias da neurociência, além de compartilhar seu vasto conhecimento sobre as o emprego da maconha, acumulado em seu trabalho intensivo de instrução de pacientes que procuram informações idôneas junto ao CEBRID. Por último, procurei como sempre demonstrar como a medicina brasileira empreendeu historicamente uma luta desleal contra a maconha e a fitoterapia, criminalizando seus usuários e curandeiros, herbalistas, etc. Em conjunto, aliar informações sobre uso medicinal, recreativo, formas de regulação e história de como e porque as drogas foram proibidas, demonstrou mais uma ver ser um poderoso antídoto ao des-serviço de setores proibicionistas, que nem vale a pena gastar tinta sobre o assunto.

Podia-se sentir o vigoroso interesse do público, que devolveu-nos algumas perguntas, que ajudam revelar também qual é o estágio de desenvolvimento do debate nestas localidades. Em Bandeirantes, o público era majoritariamente de alunos das Ciências Biológicas, em Assis, das Ciências Humanas. A apreciação do conteúdo novo pode apenas suscitar perguntas quando se associa a um conhecimento prévio, seja de uma experiência ou aprendizado anterior, e disso resultou em Bandeirantes o profundo interesse pelas atribuições medicinais da maconha e sua relação com o sistema neurológico, encarando os outros temas tratados com ar de profunda novidade. Alguns alunos, porém, talvez pela inibição, colocaram suas questões apenas após o fim da palestra, demonstrando profundo conhecimento sobre ativismo, adquirido em publicações do Coletivo Dar e Growroom. Distribuímos ainda os últimos exemplares da Cannabica, publicação impressa deste portal, atingindo a marca de 39 cidades alcançadas no país, sendo entre elas 15 capitais do país. A Marcha da Maconha Jundiaí ficou voluntariamente fora de nossa distribuição, por não compactuar com a defesa da legalização de outras drogas, uma das pautas defendidas pela Cannabica, que nas mãos de alunos interessados, desapareceu rapidamente do ponto de distribuição e se espera que se converta em peça de articulação e formação.

Após os debates, uma confraternização realizada pelos alunos de última hora, pois segundo relatos, a festa inicial havia sido impedida pelo proprietário da chácara locada ao saber da natureza das pessoas que ali se confraternizariam mais tarde. Removidas parcialmente as distâncias entre o disseminador e o ouvinte, tomei conhecimento de grande multiplicidade de iniciativas que se inserem na mesma trincheira que a luta pela legalização da maconha, como a bio-construção e o tratamento de doenças com terapias tradicionais. Como esquecer aquela face da professora que, em pé, na porta do auditório, acenava afirmativamente para mim enquanto dizia como a indústria havia varrido para debaixo do tapete as terapias tradicionais.

No evento realizado no dia do biólogo, foi lançada a semente para mais uma Marcha da Maconha no interior, que começa seu movimento nas redes sociais e que pouco a pouco se integrará ao movimento nacional como Marcha da Maconha Bandeirantes. A Marcha da Maconha Assis está em fase de incubação. Notamos o florescimento de movimentos similares, como a Marcha da Maconha São Carlos e São José dos Campos, fomentada após o fortalecimento dos laços de solidariedade entre ativistas da capital e do interior. Deveremos estar atentos a esses desdobramentos. Mais uma vez a imprensa local se ocupou do evento, difundindo em seus meios nossas posições. Resta ao movimento cannábico prosseguir com os trabalhos de transformação de base, formar novos quadros, fomentar a coragem necessária para que os novos ativistas compreendam que, neles mesmos, está à força necessária para transformar a realidade brasileira, da base ao centro.

*Doutorando em História pela UNESP FCL-Assis, mestre e graduado em História pela mesma instituição. É pesquisador associado ao grupo Maconhabras/CEBRID – Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas/Escola Paulista de Medicina – UNIFESP e editor do site www.cannabica.com.br e do jornal impresso Cannabica - Queimando Mitos Acendendo Fatos, ambos da ACuCa – Associação Cultural Cannábica de São Paulo.

[1] http://www.cannabica.com.br/secoes/politica/i-simposio-maconha-e-sociedade-em-direcao-ao-interior


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