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I Simpósio Maconha e Sociedade: em direção ao interior

Rafael Morato Zanatto* - Fotos: Eder Capobianco

Talvez o movimento cannabico devesse assumir como estratégia político-pedagógica amplificar sua voz no interior


Nos dias 24 e 25 de junho realizou-se na cidade de Assis o I Simpósio Maconha e Sociedade, na UNESP-FCL Assis. Nas dependências da Universidade, local bastante arborizado e espaço legalize, o público esperava ansioso para assistir as apresentações sobre os usos da a maconha em nossa sociedade.

O evento apoiado pelo departamento de Psicologia Evolutiva e Social foi aberto pela fala do Professor Luiz Carlos Rocha, que anunciou o início das atividades às 250 pessoas que ocuparam a totalidade das cadeiras e os corredores do auditório, além do grande número de pessoas que assistiu em pé os dois dias do simpósio.

O primeiro dia contou com o lançamento do Jornal Cannabica, da ACuCa-SP e foi distribuida a Revista Maconha, do Rio de Janeiro, antes das apresentações de Lucas Maia, pesquisador do CEBRID – Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas /Maconhabrás – UNIFESP, André Kiepper, da Escola Nacional de Saúde Pública – FIOCRUZ e Fábio de Carvalho, pai de Clarian, de 12 anos, portadora de Síndrome de Dravet que faz tratamento com óleo de maconha.

Lucas Maia, coordenador do Grupo Maconhabrás, percorreu com precisão a evolução dos estudos sobre o uso medicinal da maconha, partindo da primeira referencia ao uso medicinal do cânhamo, um entre outros espécimes do herbário do imperador chinês Nung, há quase 5.000 anos. Deste ponto de partida, o pesquisador mostrou que apenas no Século XX, a perseguição à planta tem inicio, sendo bloqueados na maioria das vezes os estudos que apontavam sua validade para tratamento de várias doenças. Proibida por questões de ordem econômica e racial, pesquisas a partir da década de 1960 começaram a apontar os benefícios da planta para tratamento de doenças como epilepsia, dores crônicas, fibromialgia, câncer, Alzheimer, náusea, etc, trazendo estudos bastante atualizados, pontuando ainda o benefício dos terpenoides e a primazia dos extratos para a extração do óleo medicinal de maconha. O pesquisador reafirmou fato conhecido, mas ignorado de que maconha não pode ser considerada agente causadora de esquizofrenia, conforme apontou o último estudo de Harvard. Além de demonstrar que os últimos estudos apontam que a maconha é 114 vezes menos letal que o álcool.

Na sequência, Fábio de Carvalho relatou a luta de sua família para conseguir o tratamento adequado para sua filha, portadora de Síndrome de Dravet, responsável por causar convulsões violentas. Fábio relatou que após o uso da maconha medicinal, as convulsões de sua filha reduziram de 19 para 1 ou duas mensais, ou seja, permitindo que sua filha leve uma vida normal como a de outras crianças. Questionado sobre o óleo que dá para sua filha, Fábio disse que importou por um tempo do Colorado, nos Estados Unidos, mas que o alto custo e a burocracia acabavam provocando a descontinuidade no tratamento de sua filha. Fábio hoje trata sua filha com um óleo de maconha produzido no Brasil, que recebe gratuitamente de uma rede de ativistas que lutam pela regulamentação da maconha no país. “Estas pessoas são consideradas criminosas pela lei, mas tem a coragem de lutar para que minha filha e outras crianças tenha acesso à saúde, porque a vida não pode esperar. Segundo as leis eu estou errado, mas eu não me importo. Eu luto pela vida da minha filha!”. Ao final de sua fala, Fábio foi aplaudido em pé pelo auditório emocionado com o relato da luta de sua família.

Por último, André Kiepper, da FIOCRUZ, tratou com bastante propriedade o modelo de regulamentação do Colorado, a regulação da maconha no Colorado, para fins medicinais e recreativos. Kiepper mostrou que a maconha é vendida em estabelecimentos fechados, com usuários maiores de idade e registrados. Tratando do uso recreativo, Kiepper enumerou alguns dos benefícios que a criação de um mercado legal regulado como o tabaco e o álcool traria para a sociedade brasileira, produção esta formada por pequenas empresas registradas e supervisionadas por um órgão regulador e iniciativas de cultivo privado e cooperativo.

Com a formação do mercado regulado, a produção se faz localizada, reduzindo iniciativas de grande porte como o tráfico internacional e trazendo benefícios como a redução da violência e redução do consumo de maconha por crianças e adolescentes, como demonstra-nos a experiência do modelo uruguaio e do estado do Colorado. Kiepper ainda mencionou o projeto de lei que assessorou sobre a pauta, que atualmente encontra-se registrada na Câmara dos Deputados, por Jean Wyllis, contemplando todos os pontos necessários para um projeto de regulação bastante democrático, aberto tanto ao mercado como ao cooperativismo. Kiepper bastante humorado observou nos preços dos produtos cannabicos à cifra 4 por 20. Um momento de silencio e “4: 20” bastou para retirar gargalhadas da plateia.

No primeiro dia,  foram discutidos temas como a viabilidade medicinal da maconha e o histórico de seu uso, a experiência concreta de que estamos trabalhando sobre critérios bastante objetivos, como o caso de Clarian, e modelos possíveis para o Brasil, medicinal e recreativo. Como lembrou Kiepper, o que separa ambos os usos é apenas uma faixa amarela no chão.

No segundo e último dia, com o tema Maconha e Movimentos Sociais, falaram para o auditório lotado o Antropólogo Fabiano Cunha dos Santos, da UFBA, o historiador Rafael Morato Zanatto do Maconhabrás/CEBRID, o advogado Fernando Silva, da EDUCannabis/ACuCa e o professor Antonio Celso Ferreira, da UNESP- FCL Assis.

Começando por Antônio Celso, o historiador tratou da mentalidade altamente conservadora que está tomando a universidade. "A narco-política tomou conta das instituições do Estado”, isso em geral, mas é uma tendência, como no caso do México. Como relatou recentemente o filho de Pablo Escobar, o narcotráfico controlou a política da Colômbia, como os presidentes. Atualmente o exemplo do México e do Paraguai demonstram muito bem isso, e no congresso nacional são estas tendências que estão impedindo pautas como a regulamentação das drogas e do aborto, e que estão conduzindo as reformas que visam retirar os direitos dos trabalhadores. “O narcotráfico tem um papel fundamental no funcionamento do capitalismo financeiro” (...) “Pablo Escobar é um produto da guerra às drogas...”

Rafael Zanatto falou sobre a história do proibicionismo no Brasil, demonstrando como a afirmação de médicos amparados pela indústria farmacêutica substituiu as terapias tradicionais à base de plantas por medicamentos sintéticos, seja por meio de iniciativas publicitárias ou por medidas legislativas, como a lei que conferia ao médico o monopólio das práticas de cura. Ainda procurei demonstrar a partir do trabalho do Prof. Elisaldo Carlini que os estudos médicos sobre a maconha associavam a planta à degeneração psíquica, moral, ao crime e a marginalização do indivíduo. Como proposta para o Brasil, Rafael apresentou o modelo dos clubes de cannabis da Espanha, tratando das últimas leis que favorecem o cultivo de maconha em locais não visíveis ao público.

 

Já Fernando Silva, o Profeta Verde, apresentou ao público alguns processos-crime que demonstram o grande número de jardineiros e lideres religiosos, como o caso do cantor Cert, da Cone Crew Diretoria e de Ras Geraldinho, líder de uma igreja Rastafári no interior de São Paulo, condenado à 14 anos por tráfico de drogas. O advogado apresentou o caso de Rás Geraldinho e passou um vídeo de como no interior de sua igreja em americana se organizavam as tarefas do templo, como o cultivo e a geração de renda. Por último, Fernando tratou do caso de um estudante de História da UNESP-Assis preso por tráfico de drogas, com meia dúzia de plantas em seu quintal, o que emocionou os estudantes que assistiam ao simpósio ao lembrarem-se do colega encarcerado. Fernando ainda apresentou seu recente trabalho no ativismo, o EDUCannabis – Escritório de Defesa do Usuário de Cannabis, que visa auxiliar juridicamente jardineiros, usuários de maconha.

Por último, o antropólogo Fabiano Cunha apresentou sua tese de doutorado sobre os espaços Legalize em Salvador, Bahia, remetendo diretamente ao contexto da Universidade em que se realizava o Simpósio. Por último, Fabiano apresentou o histórico da Marcha da Maconha, das experiências nos anos 1980 às decisões que reconheceram o direto de livre manifestação do movimento social. Em conjunto, o segundo dia tratou de história, política atual, interesses econômicos de setores específicos, modelos associativos, os espaços de consumo legalize e a situação dos jardineiros encarcerados pela lei de drogas no país.

Além das mesas bastante ovacionadas pelo público, nas tardes do evento foram exibidos os filmes Cortina de Fumaça, cedido gentilmente pelo diretor Rodrigo MacNiven e comentado pelo pesquisador de documentário Artur Sinaque Bez e o antropólogo Fabiano Cunha, o que já preparou o público para os debates da noite, ao apresentar alguns modelos de regulação de maconha ao redor do globo. Outro filme exibido foi o clássico proibicionista Reefer Madness (1935), comentado por Rafael M. Zanatto a partir da análise das técnicas do cinema de exploração e do contexto social estadunidense pós-lei seca (1933) e proibição da maconha (1938).

Em conjunto, o evento de cunho politico-pedagógico forneceu um panorama do uso social da maconha, medicinal, recreativo e religioso, sem perder de vista o narcotráfico, a guerra das drogas e os movimentos sociais que trabalham para a construção de modelos regulatórios, mais informando e munindo o público de argumentos que podem irradiar paulatinamente pelo interior, mudando a percepção que o público tem sobre a maconha. O evento ainda apareceu três dias consecutivos em todos os jornais da cidade, na primeira página, contado com informações bastante próximas das que eram coletadas nas entrevistas. A rádio Difusora, principal do ramo na cidade, também cobriu o evento, ampliando ainda mais o alcance da iniciativa.

A experiência traz novo ânimo para que futuras realizações do tipo possam irradiar pelo interior do país. Cabe ao movimento nacional de organizar, procurar parcerias no interior de instituições, centros culturais, bibliotecas e sindicatos, procurando irradiar cultura cannabica. Só assim poderemos avançar nossas pautas e conquistar no corpo a corpo a confiança da opinião pública. Os proibicionistas realizam palestras sobre o consumo da erva do diabo, como a PROERD – Programa Nacional de Resistência às Drogas. Talvez o movimento cannabico deva assumir como estratégia político-pedagógica amplificar sua voz no interior dos estados do país e queimar uma constelação de mitos que ainda ambienta o imaginário local.

*Doutorando em História pela UNESP FCL-Assis, mestre e graduado em História pela mesma instituição. É pesquisador associado ao grupo Maconhabras/CEBRID – Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas/Escola Paulista de Medicina – UNIFESP e editor do site www.cannabica.com.br e do jornal impresso Cannabica - Queimando Mitos Acendendo Fatos, ambos da ACuCa – Associação Cultural Cannábica de São Paulo.

** Registro Audiovisual LOMBRA: https://www.facebook.com/lombrabr/videos 


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