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Associações Cannabicas: Pespectiva Comum?

Rafael Morato Zanatto *

Existe qualquer possibilidade para que as Associações Cannabicas encontrem diretrizes comuns?


Há algum tempo as associações cannábicas brasileiras tem procurado encontrar uma perspectiva comum. Dentre a grande pluralidade que se observa nas associações canábicas espanholas, o medicinal e o recreativo, ou mesmo o terapêutico, é produzido em associações que atendem todas as finalidades de seus afiliados, lúdica e medicinal, ou seja, dispõe de meios técnicos capazes de oferecer ao associado a melhor cepa para seu consumo, quando este não capaz de prover suas necessidades através do autocultivo. No Brasil, as associações cannábicas tomaram um rumo diferente: algumas formaram associações medicinais, focadas em pacientes, outras, de usuários lúdicos, voltados para a perspectiva cultural e educativa. Dentre a grande pluralidade de perspectivas culturais, sociais, técnicas, médicas, farmacêuticas, eu me pergunto e compartilho com vocês os meus questionamentos: existe alguma perspectiva comum entre as associações brasileiras, como a AMA+ME, ABRACE,  ACuCa, AMEM, APEPI, CANAPE, CULTIVE-SP, ABRACANNABIS e demais associações brasileiras?

Na manhã de hoje, estes questionamentos se materializaram na posição de Ricardo Petraglia, membro da ABRACANNABIS. O ator, que atualmente protagoniza um espetáculo que tem dado o que falar no Rio de Janeiro e que mal podemos esperar para que seja encenado em São Paulo, intitulado Os malefícios da Maconha, publicou um vídeo onde aparece como Oswaldo Cruz. Valendo-se do ponto de vista da morte, adotado por literatos como Machado de Assis,  Petraglia encarna o finado Oswaldo Cruz para denunciar a apatia histórica do instituto que carrega seu nome e demais instituições brasileiras no que se refere ao cultivo de maconha para fins terapêuticos. Sobrou até para a ANVISA, agência acusada de manter sua predileção pela importação de medicamentos. Petraglia, com um gesto bastante escrachado do teatro pastelão, esfrega o indicador e o polegar para sugerir que a agência é um grande balcão de negócios. A crítica às instituições, porém, tem como objetivo central denunciar a realização do evento Cannabis Medicinal, um olhar para o futuro, que será realizado pela FioCruz e pela APEPI; e que conta com financiamento de empresas estrangeiras, como a Entourage, Bedrocan, entre outros laboratórios. Segundo Petraglia, é evidente que o evento foi concebido para “privilegiar o marketing de produtos importados, que poderiam ser muito melhor produzidos aqui e distribuídos de graça pelo SUS”.

O que fica claro na performance de Petraglia é a insatisfação com a participação de uma Associação na realização de um evento que visa diretamente fortalecer o lobby internacional enquanto que a atrofia de nossa legislação impede, proíbe, vandaliza o florescimento de iniciativas nacionais em todos os âmbitos!

Diante deste estado de coisas, em que não é possível se calar e fingir que as coisas estão dentro da normalidade entre as associações cannábicas, passar a limpo, esclarecer as coisas e pensar mesmo se existe qualquer possibilidade para que as Associações Cannabicas encontrem diretrizes comuns, que possam contribuir para o florescimento de associações em todo o país, ou se, por outro lado, o associativismo cannabico será mais um entre tantos modelos fracassados cujos restos observamos em nossa modernidade tardia?

Considerando que o debate foi aberto por Ricardo Petraglia, convidamos a todos os interessados em participar deste debate encaminhar suas contribuições para o meu perfil. Acredito ser salutar a participação no debate de pessoas e entidadescomo a APEPI, Margarete, Frederico Policarpo, Abracannabis, Ricardo Ferreira, Leandro Ramires, Ama+Me, Ubirajara Ramos, Canape, Fernando Silva, Thálita Galutti ACuCa, Cultive, Cidinha Carvalho, Ricardo Nemer, Emílio Figueiredo, Frederico Policarpo, Luciana Boiteux, Pedro Zarur, Henrique Carneiro, Júlio Delmanto, Fabiano Santos, Wagner Coutinho Alves, Leilane Assunção, Jorge Luz de Souza, Cassiano Esperança, ABRACE, Sergio Vidal, William Lantelme, Renato Filev, Marcos Veríssimo e os demais interessados que tenham algo a contribuir com o delineamento do futuro das associações cannábicas no Brasil.

 

Assistam aquiao vídeo que deu início ao debate:

 

*  Historiador, Mestre e Doutorando em História e Sociedade UNESP/FCL Assis. Pesquisador Maconhabrás/CEBRID e editor do jornal Cannabica - Queimando Mitos Acendendo Fatos.


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