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A Erva do Norte

Lucas de Almeida Pereira Arte: C´Amô Crew

 Sou o espírito extemporâneo, o Alpha e o Ômega. Me chamo Ouroboros e sou conhecida como a cobra que morde a cauda. O espaço entre ontem e amanhã me pertence. Venho ungi-lo com uma missão sagrada: narrar o passado de uma planta. 


É com orgulho e satisfação que publicamos esta viagem ao século XIX. Somos conduzidos pelo  historiador Lucas de Almeida Pereira da Rússia ao Maranhão através de matérias de jornais para traçar linhas evolutivas e contradições na proibição da maconha. Ourobouros convida ao eterno retorno! (o Editor)

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 “Canta ó muso calvo a ira de Carola, filho de Pelego, que incontáveis males trouxe às hostes dos malucos”. Uma noite enquanto lia a Ilíada algo surpreendente ocorreu: uma fumaça densa adentrou o recinto no qual me reclinava sobre livros de outrora, e mesmo alguns do futuro. Qual foi minha surpresa quando da fumaça emergiu uma silhueta feminina com um rolo grosso de papéis em mãos. Tossindo e atônito questionei a que se dava a inesperada presença e eis que daquele corpo, cujo rosto coberto por um véu era indecifrável, fala, não com a boca, e ouço, não com os ouvidos:

- Sou o espírito extemporâneo, o Alpha e o Ômega. Me chamo Ouroboros e sou conhecida como a cobra que morde a cauda. O espaço entre ontem e amanhã me pertence. Venho ungi-lo com uma missão sagrada: narrar o passado de uma planta.

Narrar o passado não me é estranho, mas nunca havia redigido crônicas sobre plantas. Em minha mente pragmática e racional o passado pertencia exclusivamente aos homens e a seus atos. Como que lendo cada linha que saísse da minha cabeça na forma de pensamento Ouroboros retrucou:

- Do passado os homens são pouco, senão nada. Os quinhentos anos mais explosivos que conhecemos narrados não foram nada perto dos milhares de anos de caminhadas, de migração de ruminação. Se afinal os homens não passam de um ponto minúsculo no tempo, por que se recusar a narrar o passado de uma planta?

Mas essa provocação era desnecessária pois, talvez a fumaça, talvez a luz azulada da lua que entrava pela janela lateral de minha cela, já estava disposto a aceitar. Afinal uma coisa é vender sua pena pelo vil metal, o que é divertido mas às vezes incômodo, outra é cumprir uma missão sagrada à qual fui ungido. Até hoje nunca fui ungido em nada. Enquanto me perdia nessas inocentes divagações, Ouroboros havia se dissipado deixando para trás os papéis e um forte cheiro doce. Desde então tornou-se uma rotina receber papéis e aromas da musa sem rosto e que fala em pensamento (talvez meus vizinhos não gostem tanto da visita, tendo em vista as reclamações em relação ao odor da minha cela, o que sempre rebato com o mesmo argumento: “é o orégano torrando na pizza”).

 

O primeiro rolo deixado por Ouroboros era de jornais amarelados da virada do século XIX para o XX, e num primeiro momento não entendi ao certo qual era a tal da erva que deveria narrar. Lendo atentamente percebi similaridades na referência e nos títulos. Em relação aos nomes havia “diamba”, “liamba” e “maconha”, palavra que já ouvi mas não recordo aonde, quanto às referências, pouco positivas. Os indivíduos que as consumiam eram em geral repreendidos pela polícia e a erva surgia nas páginas dos periódicos quase exclusivamente em assuntos policiais. Seus efeitos, aparentemente, são incríveis: um jornal do Recife de 1928 a descreve como uma planta de sonhos e confusão.

A primeira conclusão que um observador incauto pode tirar da análise dos longos volumes é que se trata de uma erva do norte, com o nome científico “Cannabis Sativa” ou “Cannabis indica”. Erva do norte porque a maioria dos relatos que encontrei de fins do século XIX sobre o tema vem das províncias do Maranhão e do Pará, em geral negativas, envolvendo prisões, loucura, morte ou pequenas delinquências. Mas eis que meu lado científico lembrou que às vezes as palavras não correspondem às coisas, e tudo se confunde. Peguemos os termos: diamba, maconha, fumo branco, erva do norte, liamba, cannabis, sativa, indica, algo falta, espera tem a ver com papel...

Cânhamo!

Fazendo uma breve pesquisa me surpreendi não só com a importância histórica da fibra de cânhamo (e do óleo extraído de suas flores) mas com o fato de saber que no século XIX se tratava de uma erva do norte... da Rússia! Sim, no início do século XIX cannabis era coisa da Rússia. Faz sentido. O país hoje conhecido pela foice, o martelo e as bonequinhas de madeira que se encaixam progressivamente foi um dos grandes centros difusores de cânhamo no século XIX e isso não era pouca coisa. Tanto é que o ilustre Napoleão Bonaparte em 1807 tentou usar a erva para pressionar o governo britânico por meio dos Tratados de Tsilt. A explicação neste caso é bastante simples: o cânhamo era uma das principais commodities importadas pelo império bretão e a Rússia a principal exportadora da matéria prima, dominando quase 90% do mercado. Mesmo após a queda do apogeu do cânhamo na indústria têxtil, processo que ocorreu nas primeiras décadas do século XIX, a commoditie foi o terceiro produto de exportação russo na década de 1860. Em 1810 um jovem que se tornaria presidente dos Estados Unidos, Quincy Jones, escreveu um interessante relatório sobre a produção de cânhamo na Rússia, expondo principalmente o modo de plantio da erva.

Mas afinal se o cânhamo foi tão difundido na Rússia, logo existe por lá também uma cultura de maconha? Trata-se de confusão que até agora faz o autor deste texto queimar as pestanas. Comecemos pela distinção entre cânhamo e maconha, algo um tanto ambíguo. A distinção real diz respeito à seleção genética: se você deseja obter fibra o ideal é que sua planta seja alta e robusta e que não direcione sua energia para a produção de flores, portanto a preferência é pela planta com menores índices de THC e com predominância de machos. Como as plantas com alto THC produzem fibras menos adequadas à confecção de tecidos e cordas ocorreu um processo de seleção artificial no qual o grau de concentração de THC nas plantas fêmeas foi tornando-se progressivamente menor.

Há também um importante elemento cultural na questão do uso da maconha (com THC), no caso os diversos modos de utilizar a erva. Se no Brasil se difundiu o hábito de fumar as flores, em outras partes do mundo, e especialmente na Rússia, o modo mais popular de utilizar a erva era na forma de resina (haxixe) e óleos. Entre comunidades rurais o cânhamo-maconha é conhecido pelos chás e óleos de efeitos afrodisíacos e tonificantes.

Na segunda metade do século XIX o cultivo de cannabis sofreria duros impactos em dois fronts, o medicinal e o agroexportador. Em relação às exportações, a crescente preferência da Inglaterra por algodão e a invenção da máquina de desfiar fibras de algodão levaram o cultivo de cânhamo a sofrer sérias perdas. Uma máquina para desfiar fibras de cânhamo só seria inventada na década de 1930. Em relação ao aspecto medicinal a cannabis perdeu espaço ao longo da segunda década do século XIX para outras plantas, principalmente para a papoula (ópio) e a coca (cocaína), cujos extratos eram “mais confiáveis”, ou seja, era possível criar doses padronizadas de extratos de coca e ópio, já a maconha é muito mais volátil neste sentido, ou seja, cada planta apresenta uma quantidade de THC e efeitos bem distintos (mais energéticos ou psicodélicos).

A despeito da queda da venda de cânhamo, a cannabis continuou sendo cultivada na Rússia ao longo do século XX satisfazendo demandas internas. A planta, inclusive, foi alvo de pesquisa de um dos mais renomados botânicos do período, Nikolai Vavilov. Aprisionado em 1941, morreu de fome em um presídio em 1943 em função de um expurgo de biólogos comunistas ligados à área da genética, campo de estudos então desacreditado oficialmente pelo governo russo. Em 1929 Vavilov catalogaria uma variedade distinta de cannabis, descoberta na Sibéria: a cannabis ruderalis. Ao contrário de suas irmãs indica e sativa, a ruderalis é uma planta bruta, adaptada a condições climáticas adversas. Entre suas características mais marcantes está uma estratégia de sobrevivência:  gerar uma única e grande flor central, concentrando seus esforços em um único ponto. A ruderalis também faz parte de um seleto e fascinante grupo: as “cannabis selvagens”, espécies que se desenvolveram em ambientes sem seleção artificial.

Até hoje a Rússia mantém-se como uma das grandes produtoras de fibras de cânhamo no mundo, produzindo roupas e cordas. Contudo todo processo atual é feito de forma mecanizada e o cânhamo tornou-se inclusive uma alternativa propagada pelo governo russo para o combate da maconha, em um embate que poderia ser denominado “THC ao quadrado”. A lógica é simples: a plantação em larga escala de cânhamo em áreas de produção de maconha facilitaria a polinização das plantas fêmeas e a diminuição significativa de flores com altas concentrações de THC. Trata-se apenas de mais um capítulo na longa, e razoavelmente desconhecida, história dessa erva chamada nos jornais brasileiros do século XIX de “erva do norte”.

Papéis e fumaça começam a encher meus aposentos. Leio de passagem alguns dos impressos e vejo que se tratam de temas e línguas diferentes. Há coisas antiquíssimas, da Ásia, Grécia Antiga, do Brasil colonial e republicano, dos Estados Unidos, México, revoluções, conspirações, mera divagações. Por ora a vela apagou o que equivale ao descer da cortina, mas vamos colocar ordem na cela, na próxima vez tratarei do segundo rolo de jornais antigos trazidos por Ouroboros que mostram a maconha como erva do Norte, ou melhor do Nordeste...

 

*Lucas de Almeida Pereira é historiador, doutor em História (UNESP-FCL Assis), realizou pós-doutorado na UFABC em História da Ciência.

 

Bibliografia

Sobre o tratado de Tsilt

http://www.britannica.com/topic/Treaties-of-Tilsit

Sobre Nikolai Vavilov

https://pt.wikipedia.org/wiki/Nikolai_Vavilov

Sobre a plantação de cânhamo para evitar

http://www.hemp.com/2012/06/from-russia-with-hemp/

Relatório de Quincy Jones

http://www.druglibrary.org/schaffer/history/e1850/hemprussia.htm


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