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Falta de informação e Experimentação nos anos 1980

Antônio Carlos de Oliveira

Maconha era caro e pouco acessível não tínhamos coragem para procurar e se tivéssemos, não teríamos dinheiro, boa parte do nosso salário ficava era para casa. Arte: C´amô Crew


É um privilégio para a Cannabica contar com a colaboração do prof. Antônio Carlos de Oliveira, pessoa responsável por preservar parcela bastante importante da cultura dos zines paulistanos. No texto que ora apresentamos, o autor elabora um quadro bastante pessoal sobre sua experiência no movimento punk, o uso desregrado de drogas e a completa falta de informação sobre o assunto na períferia paulistana nos anos 1980. Excelente leitura! (Editor)

 

“Dizem que é remédio pra neurose; /Mas abusada acaba com os neurônios; /E com o tempo se passa; /E se esquece até, até, até, até de você; /Tudo bem, bem o que vem então é da natureza; /Mas não subestime então quem a criou; /Não, não, não, não, eu não brinco, não brinco; /Não brinco não que eu falo então o que? /(2x) Í daí como é que é? /SSSSS fogo na bomba” Fogo Na Bomba, grupo De Menos Crime

 

Diálogo:

Início do ano de 1980, dois garotos, Carlos e Edson andam pelas ruas de terra do bairro onde residem na periferia de SP e conversam:

Carlos – tô no barato de experimentar maconha.

Edson – porque?

Carlos – Todo mundo diz que te deixa louco, numa boa. Só não sei onde vou descolar.

Edson – fala com ..., o irmão dele teve preso, fuma quem sabe ele não descola.

Carlos – pode crer.

Carlos fala com o colega de escola que com o irmão arruma uma bagana (ponta) tão pequena que mal dá pra acender, principalmente para quem não tem experiência.

Sexta-feira, intervalo da escola, o colega dá para Carlos a caixa de fósforos com a bagana.

Após as aulas, às 23hs, os garotos saem da periferia e andam pelas ruas do centro da cidade, Carlos traz a bagana no bolso. Primeiro vacilo, não escondeu, se a polícia o pega no mínimo é muita porrada. Depois acende a ponta dá uns tapinhas e acabou.

Quando retorna ao grupo os colegas perguntam e ai? Nada!

Talvez a  grande ansiedade, o bagulho ruim ou a bagana pequena que “não sentiu nada”.

Anos depois retoma a pratica com mais experiência, se torna usuário da maconha.

 

O dialogo pode parecer bobagem, mas foi assim o meu primeiro contato com a maconha. Época em que não existia muita informação, se dissessem que teríamos celular e internet, na periferia diríamos o “maluco tava viajando feio”, não imaginamos a facilidade que a tecnologia traria de acesso a informação, aproximação de pessoas, grupos e movimentos.

Na época o racismo era mais explícito, tínhamos as “más companhias”, no caso de minha família, meus avós, eram os negros com quem eu andava. Triste, o Edson é negro, mas o primeiro a usar sou eu, um branco, logo eu é que deveria ser a má companhia, fato, a mãe dele me achava má companhia. Ainda reinava a ideia de que somos piolho “vamos pela cabeça dos outros”.

Na periferia, o bairro onde resido, PQ São Rafael na época era rural, 30 km do centro da cidade, 1hs30 de “busão”, ruas sem asfalto, água encanada, rede de esgoto, poucas escolas, comercio limitado ao básico, favelas, transporte ruim, sem emprego, etc.

Apesar da anistia vivíamos o regime ditatorial, a PM era (e é) temida, pegasse na rua, porrada e dependendo, delegacia, era prisão para “averiguação”, na periferia era ficar preso quanto o delgado decidisse para averiguação, a menos que a família fosse atrás, nossos pais, conservadores, não faziam com rapidez, segundo eles “era bom esse menino aprender uma lição”. Ontem como hoje a PM mata muito.

Sociedade hipócrita que tentava controlar o acesso as informações, nos mantendo na absoluta ignorância, exemplo, desse uma camisinha com 15 anos e a encheríamos pensando que era bexiga, vi acontecer. Conversar sobre drogas, sexualidade, etc., pouco  acontecia, aprendíamos uns com os outros e das piores formas possíveis.

Nossos pais eram trabalhadores braçais da indústria, sem grande qualificação ou profissionais com alguma especialização na produção. Pouca ou nenhuma escolaridade, a escola da 1ª a 4ª série era suficiente para preparar trabalhadores, aprendiam a ler e escrever. Isso para homens para mulheres era pior, bastava cuidar da casa e filhos, para isso não era necessário estudo, aprendia-se com a mãe nas tarefas que desempenhavam. Nossas mães geralmente eram empregadas domésticas.

Religiosos, enchiam o saco, conservadores e hipócritas, não podíamos consumir bebidas alcoólicas ou fumar tabaco, eles eram grandes consumidores. Difícil não ter um familiar alcoólatra ou tabagista. Não questionávamos, quem o fazia era porrada. O comum era “faça o que eu falo mas não o que eu faço e você vai se dar bem na vida”. Como se aprendêssemos mais pelas palavras que pelos exemplos.

Se falavam de drogas ai fudeu! Droga era maconha, bebidas alcoólicas e tabaco eram vicio sem importância, sou “adulto e posso”, “trabalho, tenho controle e paro quando quiser” Era comum um pai alcoólatra quebrar tudo em casa, bater em nossa mãe ou nos surrar. Vissem cabeludo na rua “lá vai o maconheiro, fique longe dele!”.

Nesse clima que jovens começamos experimentando bebidas alcoólicas nas festas familiares, consumir tabaco acendendo o cigarro de nossos pais, fumando escondido suas bitucas ou ganhando de nossos tios e primos mais velhos.

Começamos a trabalhar cedo, assim tínhamos contato com thinner, benzina, cola de sapateiro, de aspirar trabalhando a cheirar para ficar aéreo foi um pulo.

Maconha era caro e pouco acessível não tínhamos coragem para procurar e se tivéssemos, não teríamos dinheiro, boa parte do nosso salário ficava era para casa.

Depois, um traz um comprimido, sem informação, ele mastigou: disseram que ficava-se louco mais rapidamente. Começamos consumindo 1 ou 2 comprimidos com bebidas alcoólicas, rapidamente passamos para 20 cada um, 20 era a quantidade da embalagem.

O traficante era a pior pessoa do mundo, identificado como aliciador que ficava na porta das escolas oferecendo drogas para os inexperientes estudantes. Curioso, às vezes era um vizinho. O dono do bar e farmácia, eram comerciantes honestos que tocavam seu negócio, mas era deles que comprovamos o que nos alegrava.

Um dia um rapaz saiu da cadeia, disse que aquilo ia nos deixar “broxas”. Pronto, paramos. Dissesse que íamos morrer ou ficar loucos, nada teria mudado, mas tratou da virilidade e acertou. Desinformados e machistas.

Cocaína em 1980 por ali? Não se falava nem sabíamos o que era. Depois soube que no bairro quem trouxe foi um ladrão de banco que veio de uma desapropriação na Barra Funda, local próximo ao centro onde foi construído o metro. Ele, como muitos foram parar na periferia e aumentaram o número de moradores da favela do bairro.

Maconheiro era o mesmo que bandido ou marginal, nas periferias onde as informações eram escassas, a educação pública pouco atingia os moradores que estavam sujeitos, gostassem ou não, as arbitrariedades policias, judiciais e representantes do poder público. Não se prezava os direitos constitucionais e humanos.Pobre, morador da periferia tem direito de trabalhar e pronto, se tiver trabalho.

Nos inicio dos anos de 1980 um punk esfaqueou um rockeiro, o Secretário de Segurança Pública ordenou revistar todos que andassem no centro e prender quem não tivesse carteira profissional registrada.

Nesse clima que aprendemos uns com os outros o que consumir ou não, onde encontrar, como lidar com a família, padre, professores, polícia, vizinhos fofoqueiros, etc.

A sociedade foi mudando, nós mudamos, mais velhos decidimos o que ou não fazer. Foi  aumentando nosso consumo de maconha e outras drogas. As drogas ficaram mais acessíveis, como produto numa economia de mercado, mais baratos. Como na economia de mercado a qualidade vai piorando, a maconha melhorou, o THC, aumentou.

Fumar maconha passou a fazer parte de nossas vidas, ajudou em nossa socialização, mas nos “fechou” em um grupo mais especifico e restrito. Tínhamos, e temos, prazer de estar juntos, as famílias conviviam, filhos e filhas brincavam enquanto fumávamos, conversávamos.

Hoje, na política da redução de danos a maconha é utilizada como alternativa para o tratamento de usuários de crack.

Dessa geração muitos, nem todos, punks, tiveram contato com o que é chamado de drogas. É a sociedade que em seu contexto histórico cultural define se licitas ou ilícitas.

Não consegui fazer o uso moderado, perdi o controle, sofri. De jeito algum acho que a responsabilidade dessa perda de controle é dá substancia utilizada, mas do tipo de ser humano que sou, de uma forma ou outra, como dependente químico, fiquei doente, porem também poderia ser dependência de comidas, trabalho, sexo, medicamentos, etc. A substância só potencializou o descontrole que tinha em minha vida.

Muitos desses colegas, hoje pais, frequentadores de igrejas, trabalhadores, alguns, até conservadores, continuam fazendo uso de diferentes substancias, aparentemente não tem perdas nas relações afetivas, profissionais ou quaisquer outras. Felizes são eles. Eu, como portador de uma doença crônica, a dependência química, posso, mas sei que não devo voltar a consumir, para manter uma vida com qualidade.

Quem sabe, nós jovenzinhos, vivendo hoje, com tanta informação circulando, tantas publicações, inclusive esse jornal, tantos grupos lutando, e nessa luta pesquisando e esclarecendo as pessoas estaríamos menos vulneráveis aos problemas que tivemos.

A certeza que tenho, mesmo sendo um dependente químico que sempre estará em recuperação é que todas as substâncias químicas deveriam ser liberadas e as pessoas não deveriam ser presas, punidas e segregadas pelo seu consumo. Responsabilizadas pelos seus atos? Sempre?! Mas não pelo tipo de substancia que consomem.

Defendo a liberação de todas as substâncias químicas. Acredito que com igual força e veemência que aqueles que hoje defendem essa liberação devem se engajar num processo de esclarecimento para que as pessoas tenham o mínimo de conhecimento se querem ou não experimentar e usar, em quais circunstâncias, o que, com quem, quando e o que as diferentes experiências têm proporcionado a esses usuários.

Antonio Carlos de Oliveira, nascido em 1965, hoje com 50 anos, pai e avô, dependente químico em recuperação. Vice diretor de escola estadual de SP, participante do Centro de Cultura Social. Autor dos livros: “Os Fanzines contam uma história sobre os punks” (Achiamé. RJ. 2006) e “Projetos pedagógicos - praticas interdisciplinares” (Avercamp. SP. 2005).

* Escrevi o texto Drogas, Prazer, Liberdade & Anarquismo: http://redeinfoa.noblogs.org/post/2014/09/03/drogas-prazer-liberdade-anarquismo1/

http://nelcarloaldegheri.blogspot.com.br 

 


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